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title: "Chico da Silva e a arte naïf brasileira"
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# Chico da Silva e a arte naïf brasileira

Onde Chico da Silva está na arte naïf brasileira: a primeira geração de pintores primitivos, a menção de Veneza em 1966 e o naïf que virou escola no Pirambu.

A arte naïf brasileira tem uma primeira geração, a dos pintores encontrados nos anos 1930 e 1940 longe das escolas de belas-artes, e Chico da Silva é um deles. Quando os críticos o puseram nessa categoria, resume a socióloga Gerciane Oliveira, apontavam espontaneidade, nenhuma filiação a uma tradição pictórica e nenhuma preocupação com as técnicas que as convenções estabeleciam. Até o começo dos anos 1970, no Brasil, esses autodidatas de origem popular eram chamados sobretudo de primitivos; a palavra ganhou depois um peso pejorativo e foi cedendo lugar a naïf.

Nenhuma das duas foi pacífica para essa obra. Clarival do Prado Valladares escreveu em 1966 que Chico não tinha nada de primário, e as curadorias dos anos 2020 trocaram naïf por indígena. Por que nenhum rótulo fechou é assunto de [Primitivo, naïf, indígena](https://chicodasilva.org/pt/artigos/primitivo-naif-indigena/). A pergunta aqui vem antes: o que é a arte naïf brasileira e em que ponto dela ele está. Três fatos o separam dos vizinhos de rótulo: pintava bichos inventados, e não a vida em volta; recebeu em 1966 uma menção honrosa na Bienal de Veneza; e a pintura dele virou ateliê coletivo, a Escola do Pirambu, que continua nas mãos dos discípulos.

## A primeira geração

A cronologia que Roberto Galvão reproduz de Lélia Coelho Frota, em *Chico da Silva e a Escola do Pirambu* (1986), põe os nomes em fila. Cardosinho, português radicado no Rio de Janeiro, começa a pintar em 1931, já aposentado; Gerciane Oliveira o trata como precursor da arte naïf no país e conta que foram Portinari e o pintor nipo-francês Foujita que o descobriram. Heitor dos Prazeres começa em 1937. Em 1943, o pintor suíço [Jean-Pierre Chabloz](https://chicodasilva.org/pt/artigos/chabloz-e-a-descoberta/) vê os desenhos de Chico nos muros da Praia Formosa, em Fortaleza, e vai atrás de quem os fez. Em 1946, o crítico Paulo Mendes de Almeida encontra em São José do Rio Preto a pintura de José Antônio da Silva. Em 1947, Augusto Rodrigues localiza Vitalino em Caruaru e monta no Rio, no mesmo ano, a primeira exposição dos barros dele. Frota anota que Cardosinho, José Antônio e Chico iam ganhando artigos e se tornando conhecidos ao mesmo tempo.

Essa história costuma ser contada como uma série de descobertas. Em 1979, a série “Os primitivos brasileiros”, de Sérgio Viotti, no Suplemento Cultural do *Estado de S. Paulo*, enfileirava os casos: Marcier encorajou Djanira, José Antônio teve o apoio de críticos de nome, “Jean Chabloz, um suíço, encontrou Chico da Silva”. Gerciane Oliveira chama isso de fórmula biográfica da descoberta casual: o artista é achado em consequência de um talento que ninguém discute. Nem todos aceitaram a palavra que vinha junto. Djanira, quando ganhou nome, preferia não ser enquadrada como primitiva.

## Bichos no lugar da cena

O que separa Chico dos vizinhos é o assunto. José Antônio pintava paisagem e vida rural. Heitor dos Prazeres pintava a religiosidade e as expressões populares do Rio, e a mostra “Heitor dos Prazeres é meu nome”, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, em 2023, releu essa obra pela experiência dele como homem negro e morador do subúrbio carioca. Chico não pintava a vida em volta. Pintava dragões, peixes voadores, aves e cobras em cor chapada, sem profundidade e sem espaço vazio, um repertório que mudou pouco em quarenta anos.

Oscar D’Ambrosio, citado por Gerciane Oliveira, propõe uma divisão prática do gênero: primitivo para o artista de tema rural, naïf para o de tema urbano. Nos quadros de Chico não aparecem nem o campo nem a cidade. *Peixes*, guache sobre papel de cerca de 1966, mostra três peixes sobre um fundo de traços curtos em ocre, creme e azul-acinzentado. O maior atravessa a folha de ponta a ponta, a boca aberta sobre um vermelho fundo e o dorso eriçado de espinhos que sobem como folhas.

[![Um peixe grande de cauda em leque voltado para a esquerda, ladeado por dois peixes menores sobre fundo ocre hachurado. Peixes, Chico da Silva, c. 1966, guache sobre papel.](https://img.chicodasilva.org/jcc-088/chico-da-silva-fish-undated-gouache-on-paper-54x74cm-joao-cunha-collection-jcc-088-chicodasilva.org-1280.jpg)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/peixes-088/)

*[Peixes (c. 1966)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/peixes-088/), Chico da Silva*

Mesmo quando o motivo vinha da rua, a rua ficava de fora. Em *Galos de Briga*, acrílica sobre tela de 1983, não há rinha nem plateia: dois galos se encaram sobre o preto, separados por uma haste verde fina, e o resto da tela são plumas e folhas que se abrem em vermelho, laranja e verde.

[![Dois galos frente a frente, de cristas espetadas e penas esvoaçantes, sobre fundo preto. Galos de Briga, Chico da Silva, 1983, acrílica sobre tela.](https://img.chicodasilva.org/jcc-030/chico-da-silva-cockfight-1983-acrylic-on-canvas-50x70cm-joao-cunha-collection-jcc-030-chicodasilva.org-1280.jpg)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/galos-de-briga-1983-030/)

*[Galos de Briga (1983)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/galos-de-briga-1983-030/), Chico da Silva*

## Veneza e o circuito do gênero

A projeção internacional veio em 1966. Valladares escolheu doze guaches no museu da universidade cearense para a delegação brasileira à XXXIII Bienal de Veneza, e o júri deu a Chico uma menção honrosa que o próprio crítico descreveu como inédita, na história da mostra, para um primitivo. Como se chegou a ela, e o que a imprensa fez dela depois, está em [Veneza, 1966](https://chicodasilva.org/pt/artigos/veneza-1966/).

O gênero tinha circuito próprio fora do Brasil, e a obra entrou nele. Em 1979, Viotti registrava que primitivos brasileiros tinham chegado ao museu de Laval, na França, cidade natal de Henri Rousseau, o Douanier. O museu de arte naïf de Laval guarda até hoje *Animaux fantastiques*, guache de Chico de 1966.

## O naïf que virou escola

Na fórmula da descoberta, o naïf é uma mão sozinha, e a de Chico deixou de ser sozinha cedo. Entre o fim de 1963 e o começo de 1964, conta Galvão, a procura passou do que ele conseguia entregar, e Chico começou a trabalhar com garotos da vizinhança, no Pirambu, em Fortaleza. O núcleo teve cinco nomes: Babá, Claudionor, Garcia, Ivan de Assis e Chica, filha do pintor. O trabalho se dividia por etapas: uns riscavam os desenhos, outros enchiam as cores e faziam o pontilhado, e o mestre ficava com o acabamento, o verniz, a assinatura e a venda. O ateliê é a [Escola do Pirambu](https://chicodasilva.org/pt/escola-do-pirambu/); o que se espalhou a partir dele, com oficinas paralelas e falsificações, está em [A fábrica de quadros](https://chicodasilva.org/pt/artigos/fabrica-de-quadros/).

Quando o arranjo veio a público, em 1969, a imprensa buscou comparação dentro do gênero e chegou a Heitor dos Prazeres. Em junho, o *Jornal do Brasil* pôs os dois lado a lado para separá-los: Prazeres era um homem integrado num meio proletário urbano, onde havia milhares como ele, e Chico era “personalidade de exceção”. Em julho, no *O Globo*, o crítico José Roberto Teixeira Leite lembrou que Heitor, “um outro primitivo”, também tinha auxiliares.

![Página de jornal: fotografia de Chico da Silva de camisa branca, rindo, ao lado de grandes reproduções de pinturas de bichos fantásticos, sob a manchete sobre quatro séculos de arte industrializada.](https://img.chicodasilva.org/press/jornal-do-brasil-1969-06-25-p25-640.jpg)

[Ler a página inteira](https://img.chicodasilva.org/press/jornal-do-brasil-1969-06-25-p25-3200.jpg)

*Página inteira do Caderno B: "De Rubens ao Peixe Paragô: 4 séculos de arte industrializada". A oficina do Pirambu aparece ao lado dos ateliês dos velhos mestres; Chabloz, em entrevista, fala de uma indústria de quadros. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 25 de junho de 1969, Caderno B, p. 25. [Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional](https://memoria.bn.gov.br/docreader/docreader.aspx?bib=030015_08&pagfis=136212).*

A comparação com os colegas de gênero voltou no mercado, e ali a oficina pesou contra ele. Nos registros de venda pública de 1983 que Gerciane Oliveira levantou, um guache de José Antônio da Silva saiu por Cr$ 50 mil e um de Chico, por Cr$ 15 mil; ela conta a suspeita permanente sobre a autoria entre as causas da diferença.

No Pirambu, os auxiliares viraram discípulos com nome. Em março de 1977 os cinco expuseram como “Os Pintores do Pirambu” e passaram a assinar com os próprios nomes; em abril, pintaram com o mestre, diante do público, o painel *Homens Trabalhando*, de quatro metros por dois. Chico saía do hospital todos os dias para trabalhar na tela e a assinou no fim.

## A maneira nas mãos dos discípulos

A maneira de pintar sobreviveu ao mestre. Galvão escreve que a pintura de Babá, o [primeiro discípulo](https://chicodasilva.org/pt/artigos/baba-o-primeiro-discipulo/), virou o padrão que a escola inteira perseguia, a ponto de haver quem a achasse superior à do próprio Chico. O grupo se dispersou ainda em vida do mestre e voltou depois da morte dele, em 1985: [Garcia](https://chicodasilva.org/pt/artigos/garcia-o-ultimo-discipulo/), que tinha ido para São Paulo em 1973, retomou a pintura por volta de 2000, e Babá voltou à tela em 2004. Gerardo da Silva, neto do pintor, ficou em primeiro lugar na Bienal Naïf de 2004, registra a tese de Gerciane Oliveira; é a mostra que ela mesma descreve como a mais importante do gênero no país.

Os polípticos mostram a gramática do mestre desmontada em peças. Em *Animais Fantásticos*, de 2006, Garcia juntou nove telas pequenas numa mesma caixa de madeira, em três fileiras de três, cada uma com um ou dois bichos: uma serpente marinha de mandíbula cheia de dentes, um dragão de asas roxas de morcego, peixes fantásticos, uma ave de crista. Cada painel fecha um quadro inteiro com o repertório que Garcia aprendeu menino, no quintal vizinho ao de Chico.

[![Nove pinturas pequenas numa caixa de madeira: dragões, serpentes marinhas, peixes fantásticos e uma ave de crista sobre fundo azul. Animais Fantásticos, Chico da Silva por Garcia, 2005–2006, acrílica sobre tela.](https://img.chicodasilva.org/jcc-091/chico-da-silva-by-garcia-fantastic-animals-2006-acrylic-on-canvas-75x90cm-framed-joao-cunha-collection-jcc-091-chicodasilva.org-1280.jpg)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/animais-fantasticos-2006-091/)

*[Animais Fantásticos (2005–2006)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/animais-fantasticos-2006-091/), Chico da Silva por Garcia*

Babá fez o mesmo na vertical, em 2008: três telas empilhadas numa caixa alta, dois galos bico a bico sobre o amarelo, um peixe de boca escancarada sobre o vermelho e, embaixo, uma garça que estica o bico para um peixe. Na [Coleção João Cunha](https://chicodasilva.org/pt/sobre/), essas telas entram sob dupla atribuição, Chico da Silva por Garcia e Chico da Silva por Babá: o universo é de Chico, a fatura é do discípulo. Garcia, o último vivo do núcleo, segue pintando em Fortaleza, e as [pinturas](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/) do acervo mostram as duas mãos lado a lado.

[![Três pinturas empilhadas numa caixa de madeira alta: dois galos bico com bico, um peixe de boca escancarada e uma garça com um peixe. Animais Fantásticos, Chico da Silva por Babá, 2003–2008, acrílica sobre tela.](https://img.chicodasilva.org/jcc-092/chico-da-silva-by-baba-fantastic-animals-2008-acrylic-on-canvas-75x30cm-framed-joao-cunha-collection-jcc-092-chicodasilva.org-1280.jpg)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/animais-fantasticos-2008-092/)

*[Animais Fantásticos (2003–2008)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/animais-fantasticos-2008-092/), Chico da Silva por Babá*

## Obras relacionadas

-   [![Um peixe grande de cauda em leque voltado para a esquerda, ladeado por dois peixes menores sobre fundo ocre hachurado. Peixes, Chico da Silva, c. 1966, guache sobre papel.](https://img.chicodasilva.org/jcc-088/chico-da-silva-fish-undated-gouache-on-paper-54x74cm-joao-cunha-collection-jcc-088-chicodasilva.org-1280.jpg)Peixes Chico da Silva, c. 1966](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/peixes-088/)
-   [![Dois galos frente a frente, de cristas espetadas e penas esvoaçantes, sobre fundo preto. Galos de Briga, Chico da Silva, 1983, acrílica sobre tela.](https://img.chicodasilva.org/jcc-030/chico-da-silva-cockfight-1983-acrylic-on-canvas-50x70cm-joao-cunha-collection-jcc-030-chicodasilva.org-1280.jpg)Galos de Briga Chico da Silva, 1983](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/galos-de-briga-1983-030/)
-   [![Nove pinturas pequenas numa caixa de madeira: dragões, serpentes marinhas, peixes fantásticos e uma ave de crista sobre fundo azul. Animais Fantásticos, Chico da Silva por Garcia, 2005–2006, acrílica sobre tela.](https://img.chicodasilva.org/jcc-091/chico-da-silva-by-garcia-fantastic-animals-2006-acrylic-on-canvas-75x90cm-framed-joao-cunha-collection-jcc-091-chicodasilva.org-1280.jpg)Animais Fantásticos Chico da Silva por Garcia, 2005–2006](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/animais-fantasticos-2006-091/)
-   [![Três pinturas empilhadas numa caixa de madeira alta: dois galos bico com bico, um peixe de boca escancarada e uma garça com um peixe. Animais Fantásticos, Chico da Silva por Babá, 2003–2008, acrílica sobre tela.](https://img.chicodasilva.org/jcc-092/chico-da-silva-by-baba-fantastic-animals-2008-acrylic-on-canvas-75x30cm-framed-joao-cunha-collection-jcc-092-chicodasilva.org-1280.jpg)Animais Fantásticos Chico da Silva por Babá, 2003–2008](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/animais-fantasticos-2008-092/)
-   [![Quatro pinturas pequenas numa caixa de madeira: uma ave de crista, dois peixes fantásticos e um caracol, sobre fundos quentes. Animais Fantásticos, Chico da Silva por Garcia, 2005–2006, acrílica sobre tela.](https://img.chicodasilva.org/jcc-089/chico-da-silva-by-garcia-fantastic-animals-2006-acrylic-on-canvas-50x60cm-framed-joao-cunha-collection-jcc-089-chicodasilva.org-1280.jpg)Animais Fantásticos Chico da Silva por Garcia, 2005–2006](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/animais-fantasticos-2006-089/)
-   [![Quatro pinturas pequenas numa caixa de madeira: duas criaturas parecidas com dragões, um inseto grande e duas aves. Animais Fantásticos, Chico da Silva por Garcia, 2004–2006, acrílica sobre tela.](https://img.chicodasilva.org/jcc-090/chico-da-silva-by-garcia-fantastic-animals-2006-acrylic-on-canvas-50x60cm-framed-joao-cunha-collection-jcc-090-chicodasilva.org-1280.jpg)Animais Fantásticos Chico da Silva por Garcia, 2004–2006](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/animais-fantasticos-2006-090/)
