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title: "Augustin Lesage: da mina às arquiteturas pintadas"
description: "Como Augustin Lesage construiu suas pinturas: trabalho na mina, redes espíritas, gabaritos e a organização de duas telas conservadas no LaM."
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Arte e artistas

# Augustin Lesage: da mina às arquiteturas pintadas

Como Augustin Lesage construiu suas pinturas: trabalho na mina, redes espíritas, gabaritos e a organização de duas telas conservadas no LaM.

A primeira grande tela de Augustin Lesage ocupava nove metros quadrados. Ele trabalhou nela de 1912 a 1913, enquanto ainda era mineiro no Pas-de-Calais. O tamanho trazia um problema doméstico: segundo o dossier do LaM, faltava espaço em casa para estender as primeiras pinturas, e Lesage dobrava a tela para trabalhar por faixas. Aqueles andares de pequenos motivos que hoje parecem fachadas imaginárias também têm uma história de superfície, espaço e trabalho.[^bio][^dossier]

Lesage (1876–1954) dizia receber dos espíritos as instruções para pintar. Levou essa explicação a congressos e demonstrações públicas, encontrou apoio para deixar a mina e expôs em salões. A leitura de sua pintura passa por esse meio espírita, mas também por perguntas bastante materiais: como distribuir centenas de formas, manter um eixo ao longo da tela e fazer um rosto aparecer dentro de um campo ornamental?

## Uma vocação contada pelos espíritos

Nascido numa família de mineiros em Auchel, Lesage exerceu o mesmo ofício. O relato recolhido pela Collection de l’Art Brut situa aos 35 anos a voz ouvida no fundo da mina que lhe anunciava um futuro de pintor. Depois vieram os desenhos que atribuía a pessoas mortas, entre elas sua irmã Marie, falecida aos três anos. A primeira tela levou meses; a pintura foi interrompida em 1914 e retomada em 1916.[^bio]

O vocabulário desse relato era partilhado por outras pessoas. Lesage leu Léon Denis, participou de sessões espíritas e recebeu o mecenato de Jean Meyer, diretor da *Revue spirite*. Com esse apoio, deixou a mina em 1923. Em 1925, mostrou uma pintura no congresso espírita internacional de Paris; no ano seguinte, expôs *L’Esprit de la pyramide* no Salon d’Automne. Em 1927, pintou diante do público no Institut métapsychique international.[^egypte]

Esses encontros dão uma medida de sua circulação. A atribuição da pintura aos espíritos oferecia a Lesage uma maneira de explicar a própria atividade; oferecia também a seus interlocutores um motivo para observar, divulgar e sustentar esse trabalho. Havia leitores, organizadores e patrocinadores em torno das telas. Sua passagem da mina à pintura aconteceu dentro dessas relações.

## Como uma faixa sustenta a seguinte

O dossier pedagógico do LaM descreve um método de construção com gabaritos. Copos e botões forneciam contornos circulares; réguas, esquadros e fita métrica ajudavam a regular as formas. Motivos têxteis também entravam nesse repertório. O documento relaciona a disposição em registros horizontais à necessidade inicial de dobrar a tela e descreve o avanço gradual sobre a superfície.[^dossier]

Essa informação muda o sentido de “pintura automática”, expressão usada para Lesage. A palavra não obriga a imaginar uma mão correndo depressa ou uma imagem pronta de uma vez. No procedimento descrito pelo museu, repetição e medição fazem parte de um trabalho demorado. O fato de Lesage atribuir a orientação aos espíritos convivia com a escolha de instrumentos capazes de repetir um intervalo ou fechar um círculo.

O dossier acompanha esse método em *L’Esprit de la pyramide*, de 1926. Nas duas pinturas reproduzidas a seguir, feitas por volta de 1930, a relação entre a pequena marca e o desenho inteiro continua a organizar a superfície. Os instrumentos descritos pelo museu ajudam a compreender como a regularidade podia ser construída ao longo do trabalho.

## Composition: o centro surge das correspondências

![Fileiras de pequenos motivos vermelhos, azuis e claros formam duas massas simétricas e convergem em uma ponta na base; a tela está em moldura de madeira.](https://chicodasilva.org/editorial/augustin-lesage/composition-640.jpg)

*Composição (Composition), cerca de 1930. Óleo sobre tela, 70 × 49 cm.

Augustin Lesage. LaM, Villeneuve-d'Ascq, 999.32.4. Doação de L'Aracine em 1999. Fotografia: Cécile Dubart. [Ficha do LaM](https://www.musee-lam.fr/fr/composition-3).*

Nesta *Composition*, de cerca de 1930, duas formas arredondadas ocupam o alto. Entre elas, um arco menor envolve uma figura clara; abaixo, dezenas de faixas horizontais atravessam quase toda a largura da pintura. O fundo escuro fica nas laterais e nos intervalos entre os três volumes superiores.

O formato de 70 × 49 cm é bastante menor que o da primeira grande tela de Lesage.[^composition] Dentro desse espaço, ele multiplica as diferenças de escala. À distância, o contorno sugere uma construção; de perto, cada andar contém pequenas formas vermelhas, azuis e claras, umas alongadas, outras quase circulares. Uma faixa larga interrompe a sequência miúda antes que outra série comece. É possível seguir uma linha de um lado ao outro sem encontrar uma cena narrativa.

Na parte inferior, a ordem muda. Bandas vermelhas e amarelas se inclinam até formar uma ponta, e o centro fica mais marcado. O eixo vertical não é uma linha contínua desenhada de cima a baixo: o olhar o recompõe pela correspondência dos lados. As horizontais espalham os motivos; as diagonais inferiores voltam a reuni-los.

O aspecto arquitetônico nasce dessa organização. Há algo semelhante a andares, nichos e uma base, mas a tela não descreve um edifício que se pudesse percorrer. O que ela oferece é uma sucessão de unidades pintadas que se agregam e se separam conforme a distância de observação.

## Um Egito pintado antes da viagem

![Uma figura de rosto claro ocupa o centro de uma composição simétrica com arcos, faixas de pequenos motivos, cabeças de felinos, uma harpa à esquerda e um cavalo à direita.](https://chicodasilva.org/editorial/augustin-lesage/mysteres-egypte-640.jpg)

*Les Mystères de l’Antique Egypte (Os mistérios do Antigo Egito), 1930. Óleo sobre tela, 143 × 113 cm.

Augustin Lesage. LaM, Villeneuve-d'Ascq, 999.32.1. Doação de L'Aracine em 1999. Fotografia: C. Thériez. [Ficha do LaM](https://www.musee-lam.fr/fr/les-mysteres-de-lantique-egypte).*

*Les Mystères de l’Antique Egypte*, de 1930, mede 143 × 113 cm. O rosto de olhos negros e cabelos abertos dos dois lados ocupa o centro superior. Abaixo dele, faixas coloridas descem até uma estrutura que parece sustentar várias cenas. Há rostos, animais e objetos em meio à repetição de pequenos traços.

O LaM situa a entrada de rostos e referências às religiões e ao Egito antigo na pintura de Lesage a partir de 1928. Sua viagem ao Egito ocorreu em 1939, nove anos depois deste quadro.[^egypte] O repertório egípcio já era, portanto, uma matéria de pintura antes de se tornar experiência de viagem. A cronologia impede ler a tela como registro de algo que ele acabara de visitar.

Aqui, a simetria convive com diferenças de assunto. Uma harpa ocupa a esquerda, enquanto à direita aparece um cavalo claro. Duas cabeças de felinos, mais abaixo, se voltam para a construção central. Os compartimentos têm posições e contornos próximos; as imagens em seu interior variam. O equilíbrio depende desse arranjo de áreas, sem exigir que uma metade copie a outra.

Na base, dois rostos coroados enquadram uma imagem menor. Portas e colunas pintadas devolvem o olhar a uma arquitetura frontal. O título aparece escrito acima dessa última faixa, dentro da pintura. As palavras ajudam a orientar a leitura, embora o campo visual reúna mais elementos do que uma única identificação egípcia consegue explicar.

Entre os compartimentos com figuras, pequenas marcas continuam a preencher os espaços. Elas têm uma função dupla: dão continuidade à superfície e fazem as cenas maiores se destacarem. Quem procura apenas símbolos perde essa diferença de escala; quem vê apenas um padrão deixa escapar as interrupções que os rostos e os animais produzem.

## Um eixo também pode separar os corpos

[![Dois galos de plumagem suntuosa frente a frente sobre fundo dourado. Rinha de Galos, Chico da Silva, 1969, guache sobre papel.](https://img.chicodasilva.org/jcc-031/chico-da-silva-cockfight-1969-gouache-on-paper-hardboard-53x67cm-joao-cunha-collection-jcc-031-chicodasilva.org-1280.jpg)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/rinha-de-galos-1969-031/)

*[Rinha de Galos (1969)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/rinha-de-galos-1969-031/), Chico da Silva João Cunha Collection.*

A diferença entre equilíbrio e espelhamento aparece sob outra forma em *Rinha de Galos*, de Chico da Silva, pintada em 1969. Dois galos de pescoços curvados se enfrentam sobre o amarelo. Os bicos quase se encontram; as patas avançam para a abertura entre os corpos. As duas aves ocupam posições correspondentes, mas têm desenhos de peito e asas diferentes. As caudas descem para os cantos, com pesos desiguais.

É o confronto que cria um centro vazio. Em Lesage, o eixo costuma receber uma figura ou uma construção, e os compartimentos se distribuem a partir dele. No guache de Chico, o amarelo entre as aves torna visível a distância que elas procuram atravessar. A semelhança de disposição serve para localizar uma diferença de ação: as formas de Lesage se alinham diante de nós; os galos se voltam um para o outro.

## As duas vidas públicas das telas

As pinturas de Lesage circularam em ambientes espíritas e em exposições de arte ainda durante sua vida. Mais tarde, entraram em coleções de art brut. A Collection de l’Art Brut conserva trabalhos seus em Lausanne; as duas telas reproduzidas neste artigo chegaram ao LaM pela doação de L’Aracine em 1999.[^bio][^composition][^egypte]

São formas diferentes de apresentar o mesmo trabalho. Para um congresso espírita, a pintura podia ser observada como manifestação da mediunidade relatada por Lesage. Num museu, entram em primeiro plano o suporte, a data, o modo de pintar e a posição da obra entre outras produções. O artigo sobre [art naïf, art brut e art singulier](https://chicodasilva.org/pt/artigos/arte-naif-brut-singulier-diferencas/) acompanha essa história das classificações.

Em *Les Mystères*, Lesage deixou a identificação dentro da própria tela, logo acima da fachada inferior. O museu a repete na ficha, junto de um dado que a pintura não contém: a entrada no acervo em 1999.[^egypte]

[^bio]: Collection de l’Art Brut. [*Lesage, Augustin*](https://artbrut.ch/fr/autrices-et-auteurs/lesage-augustin). Datas, origem familiar, relato da voz, primeira tela de 1912–1913 e abandono da mina em 1923.

[^dossier]: LaM. [*Augustin Lesage. Dossier pédagogique des collections*](https://www.musee-lam.fr/sites/default/files/2018-12/Augustin-Lesage.pdf), segunda folha, seção “Une composition ordonnée, entre abstraction et figuration”, e terceira e quarta folhas, seção “Contexte”. Gabaritos, instrumentos, dobra das primeiras telas e meio espírita. PDF sem numeração impressa.

[^egypte]: LaM. [*Les Mystères de l’Antique Egypte*](https://www.musee-lam.fr/fr/les-mysteres-de-lantique-egypte), 1930, 999.32.1. Óleo sobre tela, 143 × 113 cm; doação de L’Aracine em 1999. Ficha e seção “Notice”: percurso, exposições, figuras a partir de 1928 e viagem de 1939. Crédito fotográfico: C. Thériez.

[^composition]: LaM. [*Composition*](https://www.musee-lam.fr/fr/composition-3), cerca de 1930, 999.32.4. Óleo sobre tela, 70 × 49 cm; doação de L’Aracine em 1999. Crédito fotográfico: Cécile Dubart.

## Leia também

-   [Art naïf, art brut e art singulier: diferenças](https://chicodasilva.org/pt/artigos/arte-naif-brut-singulier-diferencas/)
-   [Séraphine Louis: flores e árvores de um mundo imaginado](https://chicodasilva.org/pt/artigos/seraphine-louis-pintura/)
-   [Primitivo, naïf, indígena](https://chicodasilva.org/pt/artigos/primitivo-naif-indigena/)
