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title: "Chica da Silva, a filha do pintor: Chico da Silva"
description: "Chica da Silva (Francisca da Silva), filha de Chico da Silva e única mulher do núcleo da Escola do Pirambu: o próprio nome na tela em 1976."
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# Chica da Silva, a filha do pintor

Chica da Silva (Francisca da Silva), filha de Chico da Silva e única mulher do núcleo da Escola do Pirambu: o próprio nome na tela em 1976.

![Mulher de cabelo cacheado volumoso e brinco pendente comprido olha para a câmera, de blusa escura sobre uma alça clara. Fotografia em preto e branco, com uma parede clara ao fundo.](https://img.chicodasilva.org/photos/chica-da-silva-portrait-1977-ai-upscaled-640.jpg)![A mesma fotografia como saiu impressa no livreto de 1977, em meia-tinta grossa.](https://img.chicodasilva.org/photos/chica-da-silva-portrait-1977-print-640.jpg)

*Chica da Silva no livreto Patrimônio Popular: os pintores do Pirambu, da III Exanor, 1977.Autoria não identificada. Resolução ampliada por IA a partir da reprodução impressa que aparece no canto.*

Francisca da Silva assinava Chica da Silva. Filha de [Chico da Silva](https://chicodasilva.org/pt/biografia/), foi a única mulher do núcleo inicial da Escola do Pirambu e o único nome que o pai repetiu sempre que a imprensa lhe perguntou quem eram seus alunos. O nome divide a busca com uma figura do Brasil do século XVIII, de Minas Gerais; esta Chica da Silva morava no Pirambu, em Fortaleza, e aprendeu a pintar nas cartolinas que o pai pregava na parede de casa. Ela deixou um depoimento, publicado no catálogo da exposição “Os Pintores do Pirambu” em 1977, que é o registro mais longo na voz dela: Roberto Galvão o cita em *Chico da Silva e a Escola do Pirambu* (1986) e Estrigas o transcreve por inteiro em *A Saga do Pintor Francisco Domingos da Silva*. O resto vem da monografia de Galvão, do volume *A Escola do Pirambu: um legado de Chico da Silva* (org. Flávia Muluc, 2024), da socióloga Gerciane Oliveira e dos jornais de Fortaleza.

## Dez anos, uma sexta-feira

“Quando comecei a pintar com papai, eu tinha dez anos”, começa o depoimento. Galvão data esse começo em 1965, enchendo as cores, e o volume de 2024 a põe no ateliê depois de [Garcia](https://chicodasilva.org/pt/artigos/garcia-o-ultimo-discipulo/) e [Babá](https://chicodasilva.org/pt/artigos/baba-o-primeiro-discipulo/) e antes de [Ivan](https://chicodasilva.org/pt/artigos/ivan-de-assis-o-cinema-no-bestiario/) e [Claudionor](https://chicodasilva.org/pt/artigos/claudionor-o-desenhista/), o que bate com o que ela conta: quando chegou, os outros já estavam lá. O pai pintava cartolinas pregadas na parede e um dia lhe disse que ela devia aprender a carreira dele. A resposta da filha foi uma pergunta prática: “Papai, seguir a sua arte não tem broca não?” Broca, no Ceará, é fome. Foi numa sexta-feira que ele a chamou e a pôs a trabalhar numa cartolina; levou uns cinco dias, mas o quadro saiu. Chico vendeu por cem cruzeiros e lhe deu trinta. Ela se lembrava da quantia por causa do que fez com ela: comprou um vestido.

O mesmo depoimento conta o resto em poucas frases. Ficou pintando, ajudando o pai, “até que um dia ele me disse para eu assinar meu próprio nome”; foi então que começou a botar “Chica da Silva” nos quadros. O irmão Roberto entrou depois, também pelo enchimento, com o pai fazendo o esboço para ele preencher. Ela já tinha pintado até painéis. Em 1972, numa entrevista ao jornalista Luiz Ernesto Kawall, o pai resumiu a família e a escola na mesma frase: “tive 12 filhos, 5 estão vivos e só a Chica da Silva pinta como eu”. Na mesma conversa, disse reconhecer como alunos apenas ela e Manuel, um menino que criou e tratava como sobrinho. Em 1979, a O Povo, negou que houvesse escola alguma: “Eu nunca ensinei nada a ninguém, a não ser aos meus filhos Roberto e Chica, que por esforço próprio foram tentando imitar o velho”. Ela sabia o que isso custava: queria achar uma maneira de ajudar o pai e a família, contou no depoimento, “porque ele mesmo sempre bota o meu nome no meio de tudo”.

![Homem jovem de bigode fino, sem camisa, olha para a câmera entre duas crianças: à esquerda um menino pequeno de cabelo espetado, à direita uma menina de blusa clara com a mão no ombro dele. Reprodução em tom sépia, com a trama de meia-tinta visível.](https://img.chicodasilva.org/photos/chico-da-silva-with-roberto-and-francisca-640.jpg)

*Chico entre os dois filhos, na única fotografia dos três que a coleção guarda. A legenda colada sob a cópia, no cartão do álbum, nomeia os dois: Roberto e Francisca, que assinaria os quadros como Chica da Silva.Autoria não identificada.*

## A mão dela na tela

Galvão descreve a divisão do trabalho no ateliê: Ivan e Claudionor riscavam, Garcia, Babá e Chica enchiam os campos de cor, e Chico ficava com o acabamento, o verniz, a assinatura e a venda. Gilberto Brito, restaurador que passou parte da juventude na casa, dá a versão mais próxima do chão. Pela manhã Chico pregava cinco ou seis desenhos na parede com taxinhas de sapateiro, e quem pintava, além dele, eram “basicamente o Garcia e a Chica, sua filha”. O mesmo depoimento traz o detalhe menos heroico e mais verossímil do conjunto: Francisca, que estava começando, era “um pouco negligente” e vivia sendo chamada de volta ao serviço pelo pai ou pela mãe. Era uma criança.

O repertório do grupo também leva a mão dela. Na lista em que Galvão credita a cada pintor o que trouxe para aquele vocabulário, Chica entra com as rosáceas. A frase seguinte é a origem de uma confusão: os fundos negros aparecem colados ao apelido de outro pintor da mesma relação, Soldadinho, e nas reimpressões do trecho a pontuação separa os pares nome-contribuição do mesmo jeito. O ensaio de Lucas Dilacerda no volume de 2024, que imagina a escola com quadro de professores, faz do fundo preto a lição dela: “a professora Chica ensinou que o fundo preto era um oceano escuro de possibilidades”. O próprio volume, páginas antes, explica o fundo preto sem autor nenhum, pelo mercado: entrou no repertório porque vendia bem. Garcia, que pintou ao lado dela e conta a história da escola em duas entrevistas, não atribui o fundo a ninguém.

## ”A escolinha do meu pai somos nós dois”

Em 7 de junho de 1976, com o pintor internado, O Povo publicou mais uma reportagem sobre o que chamava de babel dos quadros de Chico, e nela a casa aparece dividida contra o bairro. A pintora Heloísa Juaçaba falava de uma escolinha com 28 profissionais no Pirambu; o representante do pintor negava que ela existisse. Francisca pediu a palavra e respondeu, revoltada: “A escolinha do meu pai somos nós dois, eu e o Roberto. E mais ninguém”. Gerciane Oliveira lê a cena como estratégia de mercado: reduzida ao sangue, a permissão de pintar à maneira de Chico virava monopólio dos filhos, e as telas passaram a ser classificadas pela mão que as fez, um Chico produzido pelo Chico, um Chico produzido pela Chica.

A mesma página traz um subtítulo em caixa alta, FRANCISCA VAI ASSINAR. “A partir de agora, vou pintar com o meu nome”, disse ela, que segundo Juaçaba tinha muito talento. Era junho de 1976, quase um ano antes de o grupo inteiro passar a assinar. A reportagem também registra quem morava na Casa de Chico da Silva enquanto o pintor estava no hospital: o filho Carlos Roberto, Francisca Domingos da Silva e os dois filhos menores dela.

![Fotografia de jornal: uma mulher de cabelo curto escuro e blusa branca, sentada, olhando para a câmera, com uma prateleira de objetos ao fundo e uma mesa ao lado; a legenda impressa a nomeia como filha de Chico da Silva.](https://img.chicodasilva.org/press/o-povo-1976-06-07-p04-640.jpg)

[Ler a página inteira](https://img.chicodasilva.org/press/o-povo-1976-06-07-p04-640.jpg)

*A filha do pintor, fotografada para "Ainda a Babel de Chico da Silva", com o pintor internado. Perguntada sobre a existência de uma escola no Pirambu, ela responde: "A escolinha do meu pai somos nós dois, eu e o Roberto. E mais ninguém". Um subtítulo da mesma página, FRANCISCA VAI ASSINAR, a traz anunciando que vai pintar com o próprio nome. A legenda impressa diz "Francisca da Silva, filha de Chico da Silva".O Povo, Fortaleza, 7 de junho de 1976, p. 4. Texto de Carvalho Nogueira, fotos de Edson Pio. Acervo O Povo.*

## Os Pintores do Pirambu

Em março de 1977, o grupo de estudos formado por Hélio Rôla, Gilberto Brito e David Silberstein levou os cinco à III EXANOR como “Os Pintores do Pirambu”, com uma publicação que traz o nome dela como Francisca Silva; a história desse grupo está no artigo sobre a [Escola do Pirambu](https://chicodasilva.org/pt/escola-do-pirambu/). Foi do catálogo dessa mostra que saiu o depoimento citado aqui. No dia 16, a coluna “O Homem e as Coisas”, no Correio do Ceará, recomendou aos leitores comprar um trabalho assinado por Babá, Francisca, Ivan, Claudionor ou Garcia em vez de arriscar a compra de uma suposta pintura de Chico da Silva.

![Coluna estreita de jornal, título "O Homem e as Coisas" em duas linhas, subtítulo "Os Pintores do Pirambu" e um segundo subtítulo no meio do texto.](https://img.chicodasilva.org/press/correio-do-ceara-1977-03-16-p04-640.jpg)

[Ler a página inteira](https://img.chicodasilva.org/press/correio-do-ceara-1977-03-16-p04-640.jpg)

*"O Homem e as Coisas: Os Pintores do Pirambu". A coluna comenta a mostra do grupo na III EXANOR e recomenda comprar um trabalho assinado por Babá, Francisca, Ivan, Claudionor ou Garcia em vez de arriscar a compra de uma suposta pintura de Chico da Silva.Correio do Ceará, Fortaleza, 16 de março de 1977, p. 4. [Portal da História do Ceará](https://historiadoceara.com.br/jornais/jornal.php?mes=03&edicao=1977&pagina=correio_do_ceara_1977_03_0329.jpg).*

No mês seguinte, no XXVII Salão de Abril, os cinco pintaram diante do público, na Casa de Cultura Raimundo Cela, o painel *Homens Trabalhando*, quatro metros por dois. Chico deixou o hospital para trabalhar com eles e assinou a obra no fim. Claudionor, no memorial que a família publicou em 2024, nomeia quem estava lá: ele, Babá, Garcia, Ivan “e Chica, filha do Chico”. Marcus Vale e João Vale filmaram tudo em Super-8, e a tela entrou no acervo do Museu de Arte da UFC em 2023.

## As telas que ela assinou

O volume de 2024 reproduz telas sem título assinadas por ela, datadas de 1973, 1979 e 1984, todas do acervo de Hélio Rôla; a de 1973 é anterior ao ano em que ela anunciou o próprio nome no jornal. Uma obra dela chegou ao Estado por outro caminho. Quando o Ceará adquiriu, em 2001, o que restava da coleção que Jean-Pierre Chabloz formou com os guaches do pai, entrou no lote, ao lado dos dezesseis Chicos e dos trabalhos do próprio Chabloz, um quadro de Chica da Silva; o catálogo *Chico da Silva vê Chabloz vê Chico da Silva* (Secult, 2001) o registra em uma linha.

O julgamento do mercado sobre essas assinaturas veio rápido. Em março de 1978, a revista Arte Hoje foi ao ateliê do Pirambu, encontrou a casa sob a guarda do representante do pintor e ninguém disposto a falar. “Mesmo Chica se recusa a falar”, escreveu o repórter André Papi. A matéria explica que os quadros eram terminados por outras mãos e assinados por Chico para valorizá-los, diz que disso ninguém nunca fez segredo, e resume a preferência dos compradores numa pergunta: “Quem trocaria a assinatura de Chico por um Claudionor, um Babá, Garcia, Ivan ou Chica?”

## O que veio depois dela

Chica morreu antes de 2024: o volume daquele ano nomeia Garcia como o único do núcleo ainda vivo, e dedica o livro a Chico, Babá, Claudionor, Chica, Ivan e Garcia. Nenhuma das fontes reunidas aqui dá a data da morte dela. A pintura seguiu na família dela. Claudionor conta que ela se casou e que o marido também “deu uma de pintor”. Os dois nomes ligados a ela na relação de pintores que Galvão levantou, Geraldo e Neto, são os que O Povo, em 1976, listou como os dois filhos menores que moravam com ela, Gerardo Filho e Francisco Domingos Filho Neto. O primeiro é Gerardo da Silva, nascido em 1972, que ganhou o primeiro lugar na Bienal Naïf de 2004 e expôs no Louvre em 2007 (Oliveira, 2015). Do segundo, Galvão registra que era neto de Chico da Silva; no depoimento de 1977 ela o chama de irmão, com dez anos e já querendo pintar de tanto ver o movimento em casa.

A [Coleção João Cunha](https://chicodasilva.org/pt/sobre/) não guarda tela assinada por ela. Guarda uma do filho dela, Gerardo da Silva, que Garcia e Maria Augusta também nomeiam como neto de Chico e que, segundo Garcia, foi quem apresentou os pintores da escola ao Instituto Cultural Oboé, ciclo que tem artigo próprio, [o Instituto Oboé](https://chicodasilva.org/pt/artigos/instituto-oboe/). A tela dele está no índice de [pinturas](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/), entre as obras da escola.

[![Duas aves de crista quase idênticas frente a frente em simetria, de caudas estendidas, sobre fundo claro. Galos, Gerardo da Silva, 1998, acrílica sobre tela.](https://img.chicodasilva.org/jcc-072/gerardo-da-silva-roosters-1998-acrylic-on-canvas-69x96cm-joao-cunha-collection-jcc-072-chicodasilva.org-640.jpg)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/galos-1998-072/)

*[Galos (1998)](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/galos-1998-072/), Gerardo da Silva*

Dos cinco do núcleo, ela é a de rastro mais fino: meia página de depoimento, algumas falas em jornal, um retrato de 1976, as telas que ficaram com um colecionador e um quadro no acervo do Estado do Ceará. É por onde se começa a procurar o resto.

## Obras relacionadas

-   [![Duas aves de crista quase idênticas frente a frente em simetria, de caudas estendidas, sobre fundo claro. Galos, Gerardo da Silva, 1998, acrílica sobre tela.](https://img.chicodasilva.org/jcc-072/gerardo-da-silva-roosters-1998-acrylic-on-canvas-69x96cm-joao-cunha-collection-jcc-072-chicodasilva.org-640.jpg)Galos Gerardo da Silva, 1998](https://chicodasilva.org/pt/pinturas/galos-1998-072/)
