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title: "J. Borges: como a xilogravura conta histórias"
description: "Conheça as xilogravuras de J. Borges: a relação com o cordel, a passagem da matriz ao papel e as histórias de bichos e pessoas em três gravuras."
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Arte e artistas

# J. Borges: como a xilogravura conta histórias

Conheça as xilogravuras de J. Borges: a relação com o cordel, a passagem da matriz ao papel e as histórias de bichos e pessoas em três gravuras.

Uma onça ergue as patas contra uma serpente que dá a volta em seu corpo. Um diabo conduz uma charrete de roda enorme. Um homem carrega lenha enquanto três pessoas viajam no mesmo animal. Nas xilogravuras de J. Borges (1935–2024), a história começa pelo encontro entre figuras: quem ataca, quem segue viagem, quem precisa trabalhar.[^sesc][^ufpb][^charrete][^vida]

O artista de Bezerros, em Pernambuco, escreveu e vendeu cordéis antes de fazer suas próprias imagens. Nas capas dos folhetos e nas gravuras soltas, o título abre caminho para reconhecer a ação. Comparar uma matriz com sua impressão ajuda a entender como ele construía essas narrativas.[^sesc]

## O cordel antes da gravura

Em 1956, J. Borges comprou folhetos no Recife para revender nas feiras. A experiência com a venda precedeu a publicação de seus versos: *O encontro de dois vaqueiros no sertão de Petrolina*, de 1964, teve capa ilustrada por Dila. Para o folheto seguinte, *O verdadeiro aviso de Frei Damião sobre os castigos que vêm*, Borges fez uma xilogravura da igreja de Bezerros. Passou então a ilustrar seus próprios textos.[^sesc]

A história também era ouvida. No catálogo *Impressões dos Borges*, Marcelo Mac Cord registra a lembrança de J. Miguel, enteado e aprendiz de Borges: nas feiras, o pai recitava o cordel e parava perto do desfecho. A curiosidade pelo final ajudava a vender o folheto.[^feira]

Uma gravura solta muda a situação de leitura. O leitor tem diante de si uma cena e seu título, sem as páginas de versos que poderiam desenvolver a ação. A relação entre os corpos, a direção dos gestos e os elementos do cenário passam a carregar boa parte do relato.

## O que fica na madeira, o que aparece no papel

A xilogravura é uma impressão em relevo. A tinta cobre as partes altas da matriz de madeira; o papel recebe essa tinta quando é pressionado contra elas. As áreas retiradas pelo corte ficam sem imprimir. Na descrição de trabalho publicada pelo Museu de Arte do Rio, Borges desenha diretamente na madeira e talha o fundo ao redor das figuras.[^mar]

Mac Cord documentou entre os gravadores de Bezerros o desenho em papel transferido para a madeira. Depois de entintar a matriz com um rolete, eles pressionavam o papel com um carrinho e completavam a impressão com uma colher de pau.[^tecnica]

![À esquerda, uma matriz de madeira tem a onça e a serpente em relevo e a inscrição invertida; à direita, a impressão mostra as figuras voltadas para o lado oposto, com serpente vermelha e azul sobre papel branco.](https://chicodasilva.org/editorial/j-borges/briga-matriz-impressao-640.jpg)

*Briga da onça com a serpente, sem data informada na fonte. Matriz à esquerda e impressão à direita.

J. Borges. Reprodução: Arte Popular do Brasil, reproduzida por Selma Machado Simão em 2020. Fotógrafo e acervo não identificados na legenda. [Comparação publicada em Art&Sensorium, p. 184](https://periodicos.unespar.edu.br/sensorium/article/download/3484/pdf_12/9492).*

O título na base oferece o teste mais fácil: as letras invertidas da matriz ficam legíveis no papel. A serpente também troca de lado. Na madeira, o fundo tem cor e veios; na impressão, o branco do papel separa os animais. Os pequenos cortes que marcam as manchas da onça aparecem claros dentro de sua silhueta preta.[^matriz]

A matriz colorida conserva a distinção entre os relevos entintados e as áreas escavadas. Mac Cord registra, em 2009, que Borges passou a colorir matrizes para produzir gravuras policromáticas, atendendo ao pedido de compradoras.[^cor]

## Briga da onça com a serpente, 1988

![Uma onça preta de pé, com manchas brancas e a boca aberta, enfrenta uma serpente azul com desenhos vermelhos que se enrola ao redor dela; aves e uma figura pequena ocupam os espaços laterais.](https://chicodasilva.org/editorial/j-borges/briga-onca-serpente-1988-640.jpg)

*Briga da onça com a serpente, 1988. Xilogravura.

J. Borges. Acervo Pinacoteca UFPB. Doação Humberto Peixoto. Fotógrafo não identificado no registro. [Registro na Pinacoteca UFPB](https://www.ufpb.br/pinacoteca/doacoes/nova-doacao-j-borges/).*

A impressão da Pinacoteca UFPB, identificada como obra de 1988, traz outra distribuição de cores para esse confronto. O corpo azul da serpente atravessa a folha em curvas amplas; dentro dele, formas vermelhas se repetem até perto da cauda. A onça se sustenta nas patas traseiras e encosta as dianteiras na cabeça do animal.[^ufpb]

As bocas abertas aproximam os dois rostos, mas o corpo da serpente prolonga a cena por quase toda a altura da gravura. Aves pequenas ocupam as sobras laterais. À direita, uma figura de cabelos longos ergue um braço, com os pés afastados, como outra participante do embate.

O espaço branco tem uma função precisa: mantém separados os contornos, mesmo onde os corpos se cruzam. Dentro deles, riscos e manchas claros permitem distinguir dentes, escamas e pelos. A distância, vê-se a luta; mais perto, acompanha-se o trabalho do corte.

## A charrete do diabo, 1974

![Um diabo de chifres e cauda conduz uma charrete puxada por um cavalo; ele segura um chicote levantado, e uma roda grande ocupa o lado esquerdo da gravura em preto e branco.](https://chicodasilva.org/editorial/j-borges/charrete-diabo-1280.jpg)

*A charrete do diabo, 1974. Xilogravura sobre papel, exemplar 498/500 da pasta Doze gravadores populares do Nordeste. Janela do passe-partout: 22,5 × 32 cm.

J. Borges. Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, DO04000-006. Depósito por prazo indeterminado da Fundación Museo Reina Sofía, 2022. Fotógrafo não identificado na ficha. [Ficha no Museo Reina Sofía](https://www.museoreinasofia.es/colecciones/obra/charrete-do-diabo-la-calesa-del-diablo/).*

Aqui, a cena cabe em poucos elementos grandes. A roda ocupa quase a altura do corpo do diabo sentado. O cavalo avança para a direita, com uma pata dianteira levantada; acima dele, o chicote faz uma curva longa. A cauda com ponta de flecha sobe pela borda esquerda.[^charrete]

A direção da viagem é clara, embora quase não haja estrada. Uma faixa preta na base sustenta a roda e as patas e guarda o título. Sobre essa linha, o desenho reúne corpo, veículo e animal em uma sequência horizontal. Os chifres e a cauda bastam para dar ao condutor seu papel na história.

A tinta preta ocupa áreas extensas. Dentro da roda, os raios são linhas brancas finas; no cavalo, cortes mais curtos marcam a crina. O contraste entre essas poucas marcas e as silhuetas cheias deixa o desenho legível sem precisar preencher o fundo.

O exemplar do Reina Sofía pertence a uma pasta coletiva de gravadores do Nordeste. Essa forma de circulação permite encontrar Borges ao lado de outros autores e conhecer a gravura como uma folha de uma edição, além de sua presença nas capas de cordel.[^charrete]

## A vida em Pernambuco, 2022

![Sob galhos sem folhas, um cavaleiro segue atrás de um boi; abaixo, um homem carrega um feixe de lenha e três pessoas viajam juntas em um jumento. A cena inteira é impressa em preto sobre papel branco.](https://chicodasilva.org/editorial/j-borges/vida-pernambuco-640.jpg)

*A vida em Pernambuco, 2022. Xilogravura sobre papel, 66 × 48 cm, exemplar 3/30.

J. Borges. Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, DO04173. Depósito por prazo indeterminado da Fundación Museo Reina Sofía, 2024, doação de Gabriel Calparsoro. Fotógrafo não identificado na ficha. [Ficha no Museo Reina Sofía](https://www.museoreinasofia.es/colecciones/obra/vida-em-pernambuco-la-vida-en-pernambuco/).*

Décadas depois da charrete, Borges voltou a distribuir pessoas e animais por uma folha em preto e branco. Em *A vida em Pernambuco*, o cavaleiro do alto acompanha um boi que avança para a direita. Abaixo, três viajantes dividem um jumento. O homem à esquerda carrega um feixe de lenha tão comprido que quase alcança o boi.[^vida]

As figuras se ajustam umas às outras sem diminuir de tamanho como fariam em uma paisagem vista de longe. O boi passa acima da cabeça dos viajantes; a lenha sobe pelo intervalo deixado entre o cavalo e a borda. Galhos sem folhas ocupam o alto, enquanto pequenas aves preenchem alguns espaços vazios.

Há várias ações, mas nenhum quadro separa uma da outra. O olhar pode partir da carga de lenha, seguir o jumento e subir até o cavaleiro. O título dá a todas essas cenas um lugar comum: Pernambuco. A narrativa se forma pela proximidade entre tarefas e deslocamentos.

## Da feira às coleções

A circulação em folhas, pastas e objetos ampliou os lugares onde essas imagens podiam ser encontradas. Mac Cord documentou sua aplicação, por serigrafia, em camisas, azulejos e caixas.[^cor]

Nos acervos, cada exemplar ganha uma história própria. *A charrete do diabo* tem número de edição e pertence a uma pasta de 1974. A impressão da briga foi doada à Pinacoteca UFPB; *A vida em Pernambuco* chegou ao Reina Sofía por outro depósito, em 2024. As fichas permitem seguir esses percursos sem perder de vista as diferenças entre as folhas.[^charrete][^ufpb][^vida]

Para continuar a leitura visual, o [catálogo de J. Borges no Reina Sofía](https://www.museoreinasofia.es/colecciones/artista/j-borges-borges-jose-francisco/) reúne outras gravuras. O [catálogo do CNFCP](https://antigo.cnfcp.gov.br/pdf/CatalogoSAP/CNFCP_sap154.pdf) entra nas oficinas de Bezerros e acompanha artistas da família em seus modos de desenhar, imprimir e vender.

[^sesc]: Manuela Ferreira. [“J. Borges: mestre da madeira”](https://www.sescsp.org.br/editorial/j-borges-mestre-da-madeira/). Revista E, Sesc São Paulo, 2 de janeiro de 2025, seções “Chão nordestino” e “Entalhar a vida”.

[^ufpb]: Pinacoteca UFPB. [“Nova doação: J. Borges”](https://www.ufpb.br/pinacoteca/doacoes/nova-doacao-j-borges/), 4 de fevereiro de 2025. Registro de *Briga da onça com a serpente*, 1988, doação Humberto Peixoto.

[^charrete]: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía. [*A charrete do diabo*, 1974](https://www.museoreinasofia.es/colecciones/obra/charrete-do-diabo-la-calesa-del-diablo/), DO04000-006. Ficha e reprodução, com edição, dimensões e histórico de ingresso.

[^vida]: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía. [*A vida em Pernambuco*, 2022](https://www.museoreinasofia.es/colecciones/obra/vida-em-pernambuco-la-vida-en-pernambuco/), DO04173. Ficha e reprodução, exemplar 3/30.

[^feira]: Marcelo Mac Cord. [*Impressões dos Borges: a xilogravura de Bezerros*](https://antigo.cnfcp.gov.br/pdf/CatalogoSAP/CNFCP_sap154.pdf). Rio de Janeiro: Iphan, CNFCP, 2009, Sala do Artista Popular, n. 154, p. 21, seção “A vida e arte de alguns filhos de J. Borges”.

[^mar]: Museu de Arte do Rio. [“Museu de Arte do Rio inaugura exposição J. Borges: O mestre da xilogravura”](https://museudeartedorio.org.br/noticias/museu-de-arte-do-rio-inaugura-exposicao-j-borges-o-mestre-da-xilogravura/), descrição do desenho e do corte da matriz.

[^tecnica]: Mac Cord. [*Impressões dos Borges*](https://antigo.cnfcp.gov.br/pdf/CatalogoSAP/CNFCP_sap154.pdf), 2009, p. 11, seção “As primeiras impressões do campo”.

[^matriz]: Selma Machado Simão. [“Os trânsitos da produção visual da arte popular no cenário artístico brasileiro contemporâneo”](https://periodicos.unespar.edu.br/sensorium/article/download/3484/pdf_12/9492). Art&Sensorium, v. 7, n. 1, 2020, p. 184, figura 1. A legenda identifica matriz à esquerda e impressão à direita e informa a origem da reprodução.

[^cor]: Mac Cord. [*Impressões dos Borges*](https://antigo.cnfcp.gov.br/pdf/CatalogoSAP/CNFCP_sap154.pdf), 2009, p. 20: matrizes coloridas e circulação em outros suportes.
