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title: "José Antônio da Silva: obras e paisagens do interior"
description: "Conheça José Antônio da Silva por quatro pinturas: a colheita de algodão, os trabalhadores, o retrato de Rosinha e as paisagens do interior paulista."
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Arte e artistas

# José Antônio da Silva: obras e paisagens do interior

Conheça José Antônio da Silva por quatro pinturas: a colheita de algodão, os trabalhadores, o retrato de Rosinha e as paisagens do interior paulista.

Em uma pintura, seis pessoas juntam algodão diante de uma lavoura cheia de troncos cortados. Em outra, o mesmo cultivo ocupa quase tudo: centenas de pequenas marcas brancas sobem até as nuvens. José Antônio da Silva (1909–1996) voltou ao campo muitas vezes, mudando a cor, a escala das figuras e o modo de distribuir a tinta.[^colheita][^lindo]

Nascido em Sales de Oliveira, no interior paulista, Silva trabalhou na roça antes de ter suas pinturas expostas. Suas telas guardam essa experiência e também uma pesquisa de formas que passa pelo retrato e pela repetição de pinceladas. Quatro obras permitem acompanhar essas escolhas.[^ibere][^mac2013]

## Da roça às exposições

Silva era autodidata. Em 1946, participou da exposição inaugural da Casa de Cultura de São José do Rio Preto, onde suas pinturas chamaram a atenção da crítica. Sua primeira individual ocorreu na Galeria Domus, em São Paulo, em 1948. No ano seguinte, saiu *Romance de minha vida*, autobiografia publicada com apoio do antigo Museu de Arte Moderna de São Paulo.[^ibere][^mac2013]

O circuito dos museus entrou cedo nessa trajetória. O MASP recebeu *Colheita de algodão* por doação de Procópio Davidoff em 1949 e adquiriu *Homens serrando toras* em 1950. Silva foi premiado na primeira Bienal de São Paulo, em 1951, e participou da Bienal de Veneza em 1952 e 1966.[^colheita][^toras][^mac2013]

As paisagens que pintava tinham uma economia e uma história. No catálogo *Pintar o Brasil*, de 2025, Gabriel Pérez-Barreiro relaciona a extensão dos campos de Silva à agricultura intensiva que abasteceu a modernização brasileira. O trabalho e a transformação do terreno aparecem juntos nessa leitura.[^catalogo]

## Colheita de algodão, 1948

![Seis trabalhadores recolhem algodão em montes e cestos no primeiro plano; atrás deles, fileiras brancas atravessam um campo de troncos cortados e árvores sem folhas.](https://chicodasilva.org/editorial/jose-antonio-da-silva/colheita-algodao-1280.jpg)

*Colheita de algodão, 1948. Óleo sobre tela, 50 × 100 × 2 cm.

José Antônio da Silva. Acervo MASP, MASP.00337. Doação Procópio Davidoff, 1949. Fotografia: João Musa. [Ficha no MASP](https://masp.org.br/acervo/obra/colheita-de-algodao).*

As roupas alaranjadas e azuis separam os trabalhadores do fundo escuro. Um cesto inclinado despeja algodão à esquerda; mais ao centro, uma figura carrega uma carga branca sobre a cabeça. Os montes e os recipientes ocupam toda a base da tela. A largura do quadro permite acompanhar cada gesto antes de olhar a plantação.[^colheita]

Ao fundo, as fileiras brancas se estreitam com a distância. Um caminho avermelhado corta a lavoura em diagonal, enquanto árvores sem folhas interrompem o campo. Os tocos e as toras permanecem entre as plantas. A colheita divide o terreno com os vestígios da derrubada.

A equipe curatorial do MASP compara o primeiro plano a um palco: ali, as seis figuras organizam o algodão. A observação ajuda a perceber a diferença entre as pessoas grandes junto à borda e a extensão da lavoura atrás delas.[^colheita]

## Homens serrando toras, 1948

![Três homens de chapéu trabalham ao redor de uma grande tora escura, um deles ajoelhado sobre ela; serras, tábuas empilhadas e tocos ocupam uma paisagem verde e cinza.](https://chicodasilva.org/editorial/jose-antonio-da-silva/homens-serrando-toras-1280.jpg)

*Homens serrando toras, 1948. Óleo sobre tela, 40 × 60 × 1,5 cm.

José Antônio da Silva. Acervo MASP, MASP.00338. Aquisição, 1950. Fotografia: Eduardo Ortega. [Ficha no MASP](https://masp.org.br/acervo/obra/homens-serrando-toras).*

Uma tora enorme atravessa o quadro. O corte amarelo de sua extremidade fica à esquerda; sobre a madeira, um homem se ajoelha para trabalhar. Outros dois aparecem abaixo. As posições dos braços levam o olhar às serras, e uma pilha de tábuas avança até a borda inferior.[^toras]

O verde acinzentado do terreno e o marrom da madeira dominam a cena. A camisa laranja de quem está em cima e as faces amarelas dos troncos concentram os poucos tons quentes. A escala da tora torna os corpos pequenos diante da tarefa.

Pintadas no mesmo ano, esta tela e *Colheita de algodão* permitem observar duas etapas da transformação da paisagem: a madeira trabalhada e o campo cultivado. Em ambas, Silva põe o esforço humano perto do observador.

## Retrato de minha mulher Rosinha, 1957

![Mulher de perfil segura uma flor diante do rosto; pontos amarelos, verdes, brancos e vermelhos cobrem seu cabelo, pele e vestido, contra uma paisagem com estrada.](https://chicodasilva.org/editorial/jose-antonio-da-silva/retrato-rosinha-640.jpg)

*Retrato de minha mulher Rosinha, 1957. Óleo sobre tela, 89,5 × 69,7 cm.

José Antônio da Silva. Acervo MAC USP, 1979.2.238. Doação Theon Spanudis. Reprodução: MAC USP; fotógrafo não identificado na ficha. [Ficha no MAC USP](https://acervo.mac.usp.br/acervo/index.php/Detail/objects/20401).*

Rosinha aparece de perfil, com uma flor junto ao rosto. Uma estrada sobe à esquerda e desaparece entre árvores. A figura ocupa quase toda a altura da tela, mas a paisagem continua ao redor dela.[^rosinha]

Pequenos toques de tinta cobrem a pele, o cabelo e o vestido. As sequências mudam de direção conforme a parte do corpo: contornam a face, descem pelo pescoço, atravessam o busto. Amarelo, verde e vermelho reaparecem em regiões diferentes. A repetição constrói o volume sem apagar o desenho de cada área.

A pintura pertence à doação de Theon Spanudis ao MAC USP. Ao estudar esse conjunto, em 2013, Ana Magalhães mostrou que o crítico procurava aproximar as experiências de Silva das pesquisas da arte concreta brasileira. O retrato oferece um lugar para observar a organização da superfície que interessou a esse colecionador.[^rosinha][^mac2013]

## Lindo lindo lindo, 1976

![Um caminho vermelho divide ao meio um campo verde azulado; fileiras de pontos brancos se curvam até um horizonte alto, onde o algodão encontra uma faixa de nuvens.](https://chicodasilva.org/editorial/jose-antonio-da-silva/lindo-lindo-lindo-1280.jpg)

*Lindo lindo lindo, 1976. Óleo sobre tela, 73,5 × 99,5 cm.

José Antônio da Silva. Acervo MASP, MASP.01627. Doação Breno Krasilchik, 2015. Fotografia: Eduardo Ortega. [Ficha no MASP](https://masp.org.br/acervo/obra/lindo-lindo-lindo).*

Um caminho vermelho divide o campo ao meio. As fileiras de algodão se curvam dos dois lados e convergem para o alto; perto das nuvens, a tinta branca quase fecha a superfície. Há poucas aves no céu e nenhum trabalhador visível.[^lindo]

Olhada ao lado da colheita de 1948, a tela mostra quanto Silva podia alterar um mesmo assunto. Aqui, o horizonte fica perto da borda superior e a plantação avança até o observador. Os pontos têm intervalos diferentes, embora à distância pareçam formar um padrão regular. A inscrição do título aparece inclinada no canto inferior esquerdo.

No texto do MASP, Adriano Pedrosa e Olivia Ardui relacionam a obra ao caráter cada vez mais abstrato de suas paisagens dos anos 1970. Essa leitura parte de escolhas visíveis: a simetria aproximada, o caminho central e a repetição das marcas brancas.[^lindo]

## Silva e a arte naïf

Os termos “naïf”, “ingênuo” e “primitivo” fazem parte da recepção de Silva. O texto de Pedrosa e Ardui para o MASP critica a hierarquia que essas designações podem criar entre artistas autodidatas e os estilos aceitos como eruditos. Já Magalhães situa sua entrada nos museus no debate modernista dos anos 1940 e 1950, quando a ideia de “primitivo” convivia com o avanço da abstração.[^lindo][^mac2013]

As quatro pinturas mostram o que um rótulo geral deixa de explicar. Silva muda a dimensão das pessoas, a distância do horizonte e o tamanho das pinceladas. Um retrato é construído com pontos; décadas depois, um algodoal quase inteiro se organiza por esse recurso. A história dessas classificações e de outros pintores está no artigo [Chico da Silva e a arte naïf brasileira](https://chicodasilva.org/pt/artigos/arte-naif-brasileira/).

## Onde continuar a olhar

O MASP e o MAC USP disponibilizam fichas e reproduções das obras comentadas. O catálogo digital de *Pintar o Brasil* amplia o percurso com cenas religiosas, naturezas-mortas e autorretratos. A exposição passou pelo Musée de Grenoble, de 12 de abril a 6 de julho de 2025, antes de chegar à Fundação Iberê. Seus registros permitem conhecer pinturas reunidas de coleções públicas e particulares.[^catalogo][^grenoble][^ibere]

[^colheita]: MASP. [*Colheita de algodão*, 1948](https://masp.org.br/acervo/obra/colheita-de-algodao), MASP.00337. Ficha e texto da equipe curatorial, 2015, reproduzido de *MASP de bolso* (2020).

[^lindo]: MASP. [*Lindo lindo lindo*, 1976](https://masp.org.br/acervo/obra/lindo-lindo-lindo), MASP.01627. Ficha e texto de Adriano Pedrosa e Olivia Ardui, 2019.

[^ibere]: Gabriel Pérez-Barreiro. Texto de apresentação de [*José Antônio da Silva: Pintar o Brasil*](https://iberecamargo.org.br/exposicao/jose-antonio-da-silva-pintar-o-brasil/). Fundação Iberê, 2025.

[^mac2013]: Ana Magalhães. [*José Antonio da Silva em dois tempos*](https://repositorio.usp.br/directbitstream/4bc22ca3-ca4d-44d8-91b9-b179e0ba1e23/ANA43_joseantoniosilva.pdf). MAC USP, 2013, folder sem paginação, face interna: texto curatorial e lista de obras.

[^toras]: MASP. [*Homens serrando toras*, 1948](https://masp.org.br/acervo/obra/homens-serrando-toras), MASP.00338. Ficha e reprodução.

[^catalogo]: Gabriel Pérez-Barreiro. “José Antônio da Silva, pintor do Brasil”, em [*José Antônio da Silva: Pintar o Brasil*](https://iberecamargo.org.br/wp-content/uploads/2025/07/catalogo_jose-antocc82nio-da-silva-pintar-o-brasil-1.pdf). Fundação Iberê, 2025, pp. 7–11, especialmente p. 8.

[^rosinha]: MAC USP. [*Retrato de minha mulher Rosinha*, 1957](https://acervo.mac.usp.br/acervo/index.php/Detail/objects/20401), 1979.2.238. Ficha, reprodução e histórico de exposições.

[^grenoble]: Musée de Grenoble. [*José Antônio da Silva (1909–1996): Pintar o Brasil*](https://www.museedegrenoble.fr/3312-jose-antonio-da-silva-pintar-o-brasil-1909-1996.htm). Registro da exposição de 2025.

## Leia também

-   [Chico da Silva e a arte naïf brasileira](https://chicodasilva.org/pt/artigos/arte-naif-brasileira/)
