Arte e artistas

Heitor dos Prazeres: obras, samba e pintura do cotidiano

Conheça a pintura de Heitor dos Prazeres pelas obras Moenda, O artista e Festa de São João: o samba, o trabalho e a vida negra no Rio de Janeiro.

Em uma festa junina, os pares dançam entre a casa e a fogueira. Em outro quadro, duas pessoas trabalham junto a uma moenda, cercadas de canavial. Num retrato, um homem de barba branca e boina vermelha fuma cachimbo. São cenas pintadas por Heitor dos Prazeres (1898–1966), que levou para a tela a vida negra que conhecia no Rio de Janeiro. O músico já tinha uma carreira no samba quando começou a se dedicar à pintura, no fim dos anos 1930.123

A música aparece no gesto dos dançarinos, mas o trabalho, as casas e o próprio ofício de pintar também ocupam os quadros. Três deles dão uma boa entrada nessa produção: Festa de São João, de 1942, Moenda, de 1951, e O artista, de 1959.231

Homem de terno e gravata borboleta ao lado de uma pintura com pessoas dançando. Retrato de Heitor dos Prazeres, em preto e branco.

Heitor dos Prazeres em 1961, ao lado de uma pintura de dança. Fundo Correio da Manhã, Arquivo Nacional.

Autoria não identificada. Acervo Arquivo Nacional. Wikimedia Commons. Domínio público / Acervo Arquivo Nacional.

O Rio de Janeiro que Heitor pintava

Heitor nasceu no Rio em 1898 e cresceu na região da Praça Onze. Sua família veio da Bahia, como outras famílias negras que se fixaram nas proximidades do porto e da Cidade Nova. A casa de Tia Ciata, os ranchos de Carnaval e as rodas de samba faziam parte desse ambiente. Seu pai era marceneiro e clarinetista; a mãe, costureira. A música e o trabalho manual estavam presentes antes de a pintura se tornar uma ocupação sua.4

Já adulto, Heitor frequentou os espaços que aparecem nos quadros: bares, gafieiras, blocos e terreiros. A experiência de compositor e instrumentista também passou pelos anos de formação das escolas de samba cariocas. A Fundação Bienal registra sua participação nas origens de Mangueira e Portela, além de sua atuação como alfaiate, sapateiro e marceneiro. Em 1954, desenhou cenografia e figurinos para O guarda-chuva, do Ballet do IV Centenário de São Paulo.5

Um vestido estampado ou um terno riscado pode ocupar tanto espaço na composição quanto o rosto de quem o veste. Em muitas cenas de dança, são os tecidos que aproximam e separam os corpos: o amarelo de uma saia encontra o escuro de um paletó, uma estampa interrompe outra. O figurino participa do movimento que a tela sugere.2

Três obras para conhecer sua pintura

Festa de São João, 1942

Pares de roupas estampadas dançam num quintal cercado, entre músicos à esquerda e uma fogueira à direita, sob bandeirinhas e um balão colorido.

Festa de São João (St. John’s Day), 1942. Óleo sobre tela, 64,8 × 80,6 cm.

Heitor dos Prazeres. Coleção The Museum of Modern Art, Nova York, Inter-American Fund, 773.1942. Reprodução: MoMA. Ficha no MoMA.

O MoMA, em Nova York, conserva St. John’s Day, de 1942, título que corresponde a Festa de São João. É um óleo sobre tela de 64,8 × 80,6 cm. Na imagem, músicos ficam à esquerda, diante de uma casa; no centro, os pares dançam; à direita, uma fogueira acesa reúne outras figuras. No alto, um balão recorta a noite.2

O quintal tem limites bem visíveis. Uma cerca atravessa a frente do quadro, e a vegetação fecha o espaço pelos lados. As bandeirinhas passam sobre o grupo em diagonais. Dentro desse terreno, cada atividade encontra um lugar: tocar, dançar, olhar o balão, ficar perto do fogo. O conjunto é cheio de acontecimentos, mas o olho consegue percorrê-los.

Os vestidos amarelos, verdes e vermelhos têm pequenos desenhos; os ternos escuros são atravessados por listras claras. De perto, a festa é feita também desses detalhes. As cabeças viradas e os braços dobrados indicam relações entre as pessoas, enquanto os pés e as barras das roupas dão direção aos passos. O quadro convida a olhar cada par antes de voltar ao grupo.2

Moenda, 1951

Homem e mulher de blusa azul e saia rosa trabalham numa moenda de cana, entre folhas altas, com uma casa ao fundo e uma vasilha sob o equipamento.

Moenda, 1951. Óleo sobre tela, 65 × 81,1 cm.

Heitor dos Prazeres. Acervo MAC USP, doação Museu de Arte Moderna de São Paulo, 1963.3.602. Reprodução: MAC USP. Ficha no MAC USP.

Moenda é um óleo sobre tela de 65 × 81,1 cm, hoje no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. A obra recebeu o Prêmio Aquisição Toddy do Brasil na primeira Bienal de São Paulo, em 1951. A ficha registra a incorporação ao MAC por doação do Museu de Arte Moderna de São Paulo.3

Duas pessoas aparecem junto ao equipamento de moer cana. À esquerda, um homem se inclina sob uma haste comprida; mais ao centro, uma mulher de blusa azul e saia rosa ergue o braço. O líquido claro que sai da moenda cai numa vasilha escura. Ao redor, as folhas do canavial se dobram e se repetem; uma casa ocupa o canto superior direito.3

Aqui, o movimento vem do trabalho. O braço levantado, a diagonal da haste e as curvas das plantas dividem a superfície. O equipamento permanece entre as figuras, ligado à ação de ambas. A vegetação ocupa grande parte da tela e chega até o primeiro plano, de modo que o trabalho aparece por dentro da paisagem.

A premiação põe esse quadro num momento preciso da trajetória de Heitor. Ele enviou três pinturas à primeira Bienal e recebeu uma sala especial na segunda edição, em 1953.5

O artista, 1959

Homem negro de perfil voltado à esquerda, com barba e cabelos grisalhos, boina vermelha e camisa clara, fuma cachimbo contra um fundo azul.

O artista, 1959. Óleo sobre tela, 45,5 × 39 cm.

Heitor dos Prazeres. Acervo MASP, MASP.01652. Compra com recursos do Grupo Segurador Banco do Brasil e Mapfre, 2017. Fotografia: MASP. Ficha no MASP.

Em O artista, do MASP, o espaço é tomado por uma figura só. Um homem negro de perfil usa boina vermelha e camisa clara. Tem cabelos e barba grisalhos, fuma cachimbo e olha para a esquerda. Os fios da barba e os pequenos desenhos dos botões pedem uma observação próxima. O óleo sobre tela mede 45,5 × 39 cm.1

Olivia Ardui, autora do texto do museu, observa que a boina também aparece em autorretratos de Heitor. Por isso, propõe que a pintura possa ser outro autorretrato. É uma hipótese de leitura, não uma identificação fechada pelo título. Ardui também aproxima o cachimbo das representações de pretos-velhos nas religiões afro-brasileiras.1

O quadro muda a distância em relação às cenas coletivas. A roupa e o rosto ocupam quase tudo; o fundo azul fica ao redor do perfil. A atenção que, numa festa, se distribui entre muitas pessoas se concentra agora nos detalhes de um homem.

Como a pintura ganha ritmo

Nas cenas coletivas, é possível acompanhar sequências de cabeças erguidas, braços dobrados e pernas em posições diferentes. As figuras se aproximam em pares ou grupos; os intervalos entre elas também contam. Na leitura de Olivia Ardui para o MASP, o ritmo resulta dos gestos e da alternância das cores, aplicadas em áreas homogêneas.1

Há um procedimento de ateliê por trás da repetição de certos personagens. O catálogo Heitor dos Prazeres é meu nome, publicado em 2024, descreve o uso de desenhos em papel-manteiga com grafite no verso. Ao contornar o desenho, Heitor transferia a figura para a tela. Podia organizar as posições e indicar as cores antes de pintar, além de empregar uma mesma figura em quadros diferentes.6

Esse método permite olhar de outra forma para as semelhanças entre os corpos. Um braço reaparece, um perfil se repete, a roupa muda. Em Festa de São João, as estampas e os gestos ligam os pares; em Moenda, a posição dos trabalhadores acompanha o equipamento.23

Heitor dos Prazeres era um pintor naïf?

O nome de Heitor aparece com frequência na história da arte naïf brasileira. O MoMA incluiu sua obra numa exposição intitulada Naive Painting: A Selection from the Museum Collection, em 1972. A palavra faz parte da história de como sua pintura foi recebida e organizada pelos museus.7

As leituras mais recentes discutem os limites desse enquadramento. No catálogo da exposição do CCBB, Raquel Barreto, Haroldo Costa e Pablo León de la Barra criticam o uso de “naïf” e “primitivo” quando esses termos diminuem a elaboração artística de Heitor. Os curadores propõem ler a pintura pela experiência negra, urbana e brasileira do artista.8

Para entender seus quadros, o termo pode ser um ponto de partida histórico. A observação precisa ir até as escolhas: como ele organiza o grupo, transfere um desenho, distribui estampas e pinta um rosto. A relação desse vocabulário com outros pintores brasileiros está no artigo Chico da Silva e a arte naïf brasileira.

Onde ver as obras

As três pinturas comentadas aqui pertencem ao MoMA, ao MAC USP e ao MASP. O MAM Rio conserva também Autorretrato, de 1956, óleo sobre madeira, na Coleção Gilberto Chateaubriand. A página do museu reúne a ficha e uma audiodescrição dessa obra.9

Homem de boina vermelha, camisa rosa e calça clara pinta diante de um cavalete sob uma árvore, com uma caixa de tintas ao lado e caminhos entre a vegetação.

Autorretrato, 1956. Óleo sobre madeira, 40,8 × 29,5 cm.

Heitor dos Prazeres. Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio. Reprodução do catálogo Heitor dos Prazeres é meu nome, 2024. Catálogo do CCBB, pp. 46–47.

No quadro de 1956, a figura está sentada diante de um cavalete, ao ar livre. A boina vermelha reaparece em O artista, pintado três anos depois.10 A audiodescrição do MAM Rio acompanha a observação de Autorretrato.

Notas

  1. MASP. O artista, 1959. Ficha da obra MASP.01652 e texto de Olivia Ardui, 2017, reproduzido de MASP de bolso (2020). ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5

  2. Museum of Modern Art. St. John’s Day, 1942. Ficha da obra 773.1942 e reprodução da pintura. ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5 ↩6

  3. MAC USP. Moenda, 1951. Ficha da obra 1963.3.602 e reprodução da pintura. A Fundação Bienal também documenta a presença de Moenda na edição de 1951. ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5

  4. Instituto Moreira Salles, Discografia Brasileira. Evoé, Mano Heitor: dos Prazeres, dos sambas, das pinturas e da Pequena África, 2023. ↩

  5. Fundação Bienal de São Paulo. Heitor dos Prazeres. Texto de Guilherme Fernandes para a 36ª Bienal de São Paulo, 2025. ↩ ↩2

  6. Raquel Barreto, Haroldo Costa e Pablo León de la Barra (curadoria). Heitor dos Prazeres é meu nome. Rio de Janeiro: MT Projetos de Arte, 2024, p. 43. ISBN 978-65-982890-0-3. ↩

  7. Museum of Modern Art. Heitor dos Prazeres. Registro do artista e histórico de exposições. ↩

  8. Raquel Barreto, Haroldo Costa e Pablo León de la Barra. Texto curatorial, em Heitor dos Prazeres é meu nome. Rio de Janeiro: MT Projetos de Arte, 2024, pp. 17–19, especialmente p. 18. ↩

  9. MAM Rio. Audiodescrição: Heitor dos Prazeres, Autorretrato. Ficha e audiodescrição da obra de 1956, Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio. ↩

  10. Heitor dos Prazeres é meu nome. Rio de Janeiro: MT Projetos de Arte, 2024, pp. 46–47. Reproduções de Autorretrato (1956) e O artista (1959). ↩