A Escola do Pirambu

O ateliê de Chico da Silva no Pirambu, em Fortaleza: os cinco pintores da Escola do Pirambu, o modo coletivo de trabalho e a dupla atribuição.

Em 1963, Chico da Silva deixou o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, onde pintava desde 1961, e voltou a trabalhar em casa, no Pirambu, bairro de Fortaleza à beira-mar, povoado em grande parte por famílias retirantes da seca. Os compradores foram atrás. Henrique Bluhm, um cantor lírico alemão que Chabloz lhe apresentou, segundo o sociólogo David A. Silberstein, virou seu primeiro marchand por essa época, e logo a encomenda superou o que uma mão sozinha entregava; Silberstein, que estudou o circuito em 1977, descreve Babá pintando nos fundos da casa de lanches de Bluhm no centro e Chico passando ao fim do dia para assinar. Roberto Galvão, na monografia Chico da Silva e a Escola do Pirambu (1986), data os primeiros ajudantes de fins de 1963 ou início de 1964: meninos das ruas vizinhas que já paravam para ver o pintor trabalhar. Desse arranjo doméstico nasceu o grupo que Fortaleza passou a chamar de Escola do Pirambu, que a imprensa brasileira transformaria, antes do fim da década, numa disputa nacional sobre autoria. O caminho do próprio pintor, do Acre até essa casa perto do mar, está contado na biografia.

Pássaro, Chico da Silva, 1973
Pássaro (1973), Chico da Silva

Os cinco do núcleo inicial

O volume organizado pela curadora Flávia Muluc em 2024, para a exposição “Escola do Pirambu: Um legado de Chico da Silva”, nomeia um núcleo inicial de cinco: Babá (Sebastião Lima da Silva), Claudionor (José Claudionor Nogueira), Garcia (José dos Santos Gomes), Ivan (Ivan José de Assis) e Chica (Francisca Silva), filha do pintor. Cada um entrou por uma porta. Galvão registra que o pai de Babá o queria na sapataria da família; o menino preferia ver Chico pintar, e foi o primeiro a pôr a mão na pintura. Garcia morava na rua de trás, quintal com quintal com o pintor: no documentário Memória e Imaginário (2024), ele lembra que chegava do colégio por volta das cinco da tarde e ia direto olhar os desenhos, até o dia em que Chico perguntou se queria aprender. Ivan desenhava bichos saídos dos filmes hollywoodianos de mitologia grega quando foi convidado (Galvão, 1986). Claudionor encabeçava o risco, e o volume de 2024 recolhe seu próprio relato de que já fornecia desenhos para Chico encher na época do museu. Chica contou sua entrada no catálogo de “Os Pintores do Pirambu”, citado por Galvão: “Papai pintava cartolinas na parede. Um dia ele falou para mim que eu devia aprender a carreira dele.” O círculo não parou nos cinco: Galvão conta quase três dezenas de discípulos no auge, entre a casa e as oficinas que se desprenderam dela. Gerciane Oliveira, que entrevistou sobreviventes do grupo, localiza o núcleo na casa da rua Santa Inez e recolhe uma distinção que parte dos autores faz: “Escola Chico da Silva” para o círculo próximo, “Escola do Pirambu” para os anônimos que pintavam fora dele; no auge, ela estima cerca de quinhentas pessoas no bairro vivendo desses quadros.

Diário do NordesteFortaleza, 8 de dezembro de 1985. Reportagem de Sâmara Paula, fotos de Hélde Freitas
Página de jornal. Duas fotografias no alto: o filho do pintor, sentado e gesticulando enquanto fala, e um box fechado do aeroporto com as paredes tomadas de quadros. Abaixo, manchete em duas linhas sobre três colunas de texto.
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Dois dias depois da morte, o filho responde: "Chico da Silva terá galeria retrospectiva". Roberto da Silva, 24 anos, quer de volta os quadros, as reportagens e os papéis do pai, e a matéria nomeia por extenso os cinco pintores do grupo de 1977: Sebastião Lima da Silva, José Cláudio Nogueira, Francisca Silva, José Garcia de Santos Gomes e Ivan José de Assis.Diário do Nordeste, Fortaleza, 8 de dezembro de 1985. Reportagem de Sâmara Paula, fotos de Hélde Freitas. Recorte na Coleção João Cunha.
Galos, Chico da Silva, 1974
Galos (1974), Chico da Silva

Como um quadro atravessava a sala

O trabalho era dividido por etapa. Segundo Galvão, citado no volume de 2024, Ivan e Claudionor riscavam; Garcia, Babá e Chica enchiam os campos de cor; Chico reservava para si o acabamento, as correções, o verniz aplicado com bomba de flit, a assinatura e a venda. O material era guache sobre cartolina pregada na parede com tachinhas de sapateiro, depois papel duplex e papel madeira; a tela entrou mais tarde, pelas oficinas paralelas, porque valia mais no mercado (Galvão, 1986). Garcia, no documentário de 2024, descreve o aprendizado na mesma ordem: primeiro encher dentro do risco, depois o pontilhado que o grupo chamava de pigmentação, e só então os bichos próprios. Todos recebiam pelo serviço executado, registra o mesmo volume, e Gilberto Brito, restaurador que passou parte da juventude no ateliê, lembra, no mesmo documentário, dos ajudantes como meninos de doze, quinze, vinte anos, e acrescenta que Chico repintava o que não lhe parecia à altura. Os motivos entraram tanto pelo grupo quanto pelo fundador. Garcia, entrevistado por Muluc em janeiro de 2023, conta que os galos atenderam a pedidos de clientes, com os galos de Aldemir Martins como referência e Ivan desenhando o primeiro a partir da capa de um caderno escolar; os dragões saíram do rótulo do Querosene Jacaré, que trazia o bicho estampado na lata; o fundo preto ficou no repertório porque vendia bem, e acabou marcando a produção de todo o período da escola: nas telas destes anos, o bicho quase sempre aparece recortado contra o campo escuro.

Sem título, Chico da Silva, 1975
Sem título (1975), Chico da Silva
Sem título, Chico da Silva
Sem título, Chico da Silva

Uma questão que fica em aberto

O modo coletivo veio a público pelo escândalo. A tese de doutorado de Gerciane Oliveira (2015) situa o primeiro em 1966, na Petite Galerie, no Rio de Janeiro, com Dalva, mulher do pintor, denunciando telas de outras mãos; Galvão acrescenta que Chico foi à polícia e reconheceu como suas obras pintadas por Babá. Em junho de 1969, a Gazeta de Notícias, de Fortaleza, publicou o caso de Maria Augusta, menina de quinze anos que dizia pintar havia cinco anos para Chico assinar; O Cruzeiro levou o depoimento dela ao país inteiro: “eu pintei vários quadros para êle. Acho que não adianta mais mentir.” No dia 25 de junho de 1969, o Jornal do Brasil reproduziu Jean Pierre Chabloz, o artista suíço que lançara Chico nos anos 1940, afirmando que o pintor criara uma “indústria de quadros”. A tese de Oliveira mapeia os quatro estatutos com que o mercado opera desde então: quadro feito integralmente por Silva, feito com assistência, feito pelos auxiliares e assinado por Silva, feito e assinado pelos auxiliares. Os registros de época acompanham a escala: em 1972, o próprio Chico dizia a Kawall reconhecer como alunos apenas a filha Chica e um menino que tratava como sobrinho, Manuel; em 1977, a crítica Lélia Coelho Frota escrevia que havia anos ele “não executa mais os trabalhos” que circulavam com seu nome e uma “pretensa impressão digital”. A resposta ganhou forma em 1977. Com o grupo de estudos fundado naquele ano por Hélio Rôla, Gilberto Brito e David Silberstein, os cinco expuseram como “Pintores do Pirambu” na III Exanor e pintaram o painel coletivo Homens Trabalhando no Salão de Abril, com Chico saindo do hospital para se juntar a eles (Galvão, 1986); Silberstein publicou no mesmo ano, na Revista de Ciências Sociais da UFC, sua análise do circuito, feita com entrevistas a Claudionor e Babá. A posição de Garcia ficou registrada no documentário de 2024: tudo o que se pintou na casa de Chico, sob o olhar, a orientação e a assinatura dele, é Chico. A estimativa de Galvão, retomada no volume de 2024, é de que cerca de 90% das obras em circulação saíram da escola. Onde termina uma mão e começa outra segue em aberto, e este catálogo documenta a prática em vez de encerrá-la.

Jornal do BrasilRio de Janeiro, 25 de junho de 1969, Caderno B, p. 25
Página de jornal: fotografia de Chico da Silva de camisa branca, rindo, ao lado de grandes reproduções de pinturas de bichos fantásticos, sob a manchete sobre quatro séculos de arte industrializada.
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Página inteira do Caderno B: "De Rubens ao Peixe Paragô: 4 séculos de arte industrializada". A oficina do Pirambu aparece ao lado dos ateliês dos velhos mestres; Chabloz, em entrevista, fala de uma indústria de quadros.Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 25 de junho de 1969, Caderno B, p. 25. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Homem de camisa e calça brancas, visto de costas, encosta a mão numa área dourada de um painel grande: um lagarto comprido e listrado no eixo, uma ave azul de asas em leque, um peixe vermelho e verde embaixo, tudo sobre fundo branco. Atrás dele há outra pessoa; à direita, o batente de uma porta. Fotografia em cores.
O painel em obra: Chico trabalha o ventre dourado de um bicho no Homens Trabalhando, o painel coletivo do Salão de Abril de 1977, antes de o fundo ser preenchido.Autoria não identificada.
Quatro pintores de jaleco, de costas, pintam ao mesmo tempo um painel largo de bichos fantásticos; acima do painel, uma placa com os dizeres Homens Trabalhando. À esquerda, uma pessoa sentada numa banqueta baixa.
Os pintores do Pirambu no Salão de Abril de 1977: sete dias de trabalho diante do público, de jaleco com o próprio nome nas costas, sobre um painel de quatro metros por dois.Autoria não identificada.
Pintura larga sobre fundo amarelo e azul, cheia de dragões, peixes e aves de cauda longa. Entre os bichos há seis pessoas pintadas: um homem sem camisa em pé à esquerda, com pincel e paleta, e outras cinco segurando pincéis.
Escola Chico da Silva, de Claudionor, 2005, 200 × 300 cm. A escola se retratando: Chico de pé à esquerda, com pincel e paleta, e depois, da esquerda para a direita, Babá, Garcia, Chica, Ivan e o próprio Claudionor.Reprodução do catálogo do espólio Oboé. Esta obra não faz parte da Coleção João Cunha.
Cavalo, Chico da Silva, 1975
Cavalo (1975), Chico da Silva

A dupla atribuição neste acervo

A Coleção João Cunha mantém as duas mãos à vista. As telas pintadas por Babá entram no catálogo sob a dupla atribuição “Chico da Silva por Babá”: o universo do fundador, a fatura do discípulo. As pinturas de Babá ligadas a este artigo são acrílicas que ele pintou em 2005 e 2006, duas décadas depois da morte de Chico em Fortaleza, em 6 de dezembro de 1985; a encomenda por trás delas é assunto do artigo sobre o Instituto Oboé. Garcia, o único do núcleo ainda vivo, pinta até hoje no Ceará, e seu percurso tem capítulo próprio em Garcia, o último discípulo. A tese de Oliveira registra ainda uma geração seguinte: Gerardo da Silva, filho de Chica e neto do pintor, primeiro lugar na Bienal Naïf de 2004. Postos ao lado dos guaches dos anos 1960, os peixes e dragões tardios de Babá carregam o mesmo repertório de arte naïf quatro décadas depois. A escola sobreviveu ao fundador.

Cavalo, Chico da Silva, 1975
Cavalo (1975), Chico da Silva
Peixes, Chico da Silva por Babá, 2006
Peixes (2006), Chico da Silva por Babá