Maria Augusta, a menina que assinou

Maria Augusta do Carmo Moreira pintou para Chico da Silva no Pirambu a partir de 1965 e disse isso em público aos quinze anos: os jornais de 1969, o desafio a que ele não compareceu e uma tela que ela assinou em 1973.

Maria Augusta do Carmo Moreira assina Maria Augusta. Pintou para Chico da Silva no Pirambu por cerca de cinco anos, a partir de 1965, e em junho de 1969, aos quinze, entrou numa redação de Fortaleza e disse que telas vendidas com a assinatura dele eram dela. Os jornais foram atrás do assunto por dois meses e depois o deixaram cair, e na literatura sobre a escola ela ficou sendo aquele episódio: um nome, uma idade e uma acusação, nunca uma pintora. Está viva em Fortaleza e voltou a pintar. Este artigo usa a imprensa de 1969, os livros de Roberto Galvão e de Estrigas, um perfil publicado no O Povo em novembro de 2024 e uma entrevista que ela deu ao canal cearense TVDD em junho de 2026. A Coleção João Cunha guarda uma tela dela, assinada e datada em 25 de novembro de 1973.

A janela e o carvão

O relato que ela deu em 1969 e o que ela dá hoje divergem no detalhe e concordam na cena. Em O Cruzeiro, em agosto de 1969, ela contou: “Eu estava em minha casa, numa tarde, nos idos de 1965, pintando com lápis de côr quando, à minha janela, passou Chico. Depois de me ver pintar por um bom pedaço de tempo, pediu para que eu trabalhasse com êle. O consentimento foi dado pela minha mãe, Maria do Carmo Pereira.” Cinquenta e sete anos depois, na TVDD, ela se põe sentada no chão, na porta de casa, riscando a carvão as paredes da mãe, e é ele quem bate palma para chamar a mulher. O perfil de 2024 no O Povo também traz o carvão, e acrescenta que ele pediu licença para levar a menina até a casa dele e vê-la pintar, e que tranquilizou a mãe: só queria que ela desenhasse.

O que sustenta a cena não é a memória dela. Em junho de 1969, Fernando Sombra, do Jornal da Tarde, foi ao Pirambu e entrevistou a mãe, e Estrigas resume o que ela disse: Chico, ao passar em sua casa, viu a menina pintando e a chamou para trabalhar para ele. A versão contada hoje já era a versão da família quando ela tinha quinze anos.

Ela ouve um eco nisso. Chico foi encontrado desenhando nos muros da Praia Formosa pelo pintor suíço Jean-Pierre Chabloz, assunto do artigo sobre a descoberta, e ela foi encontrada desenhando nas paredes de casa por Chico. “Ele foi descoberto nas paredes com carvão, e eu nas minhas paredes com carvão”, disse à TVDD. Pela idade que os jornais registram, ela tinha onze anos em 1965; lembra de ter uns sete. O Globo diz que começou aos onze, com os bichos que lhe surgiam na imaginação, serpentes e peixes.

O quarto e o galpão

O lugar onde ela trabalhava a distingue dos outros. A equipe pintava num galpão alugado na rua Nossa Senhora das Graças, e é esse galpão que ela chama de Escola do Pirambu: Babá, Claudionor e Garcia juntos, com a oficina e suas disputas descritas no artigo sobre a escola de Pirambu. Ela trabalhava sozinha, num quarto da casa de Chico. Lê isso como sinal de preferência, porque o risco dela saía parecido com o dele: ele a manteve à parte, na casa, disse à TVDD, “isolada, que só tinha Deus e eu pintando”.

O material era o da escola. Ele lhe entregava as tintas, os pincéis, a água e uma folha de duplex pregada numa tábua. Ela riscava a lápis e depois enchia: “o colorido foi meu, tudo meu.” No primeiro quadro botou fundo amarelo. Conhece o vocabulário por dentro e lhe dá os mesmos nomes que Garcia dá: o clichê, o pontilhado feito por cima do chapado; o matizado, dois fundos no mesmo quadro, “o mar e o seco”; e o verniz, dado com bombinha sobre o guache, que protegia a tinta de água e deixava com aparência de óleo. Havia quem tomasse por óleo, diz ela. Garcia conta a mesma coisa, e acrescenta que pintura da escola a óleo é falsa.

Ela também o viu assinar. Chico apertava o polegar na tinta, e em 1969 ela contou a O Cruzeiro que já havia identificado telas suas em paredes importantes, assinadas por ele “com impressão digital e tudo mais”. Tanto a Gazeta de Notícias quanto O Cruzeiro contam cerca de cinco anos de trabalho. A cronologia de Galvão a lista entre os iniciantes da oficina em 1966, ao lado de Roberto, filho de Chico, e, por erro do livro, faz dela filha do pintor também.

A tinta

A tinta a adoeceu. Ficou amarela e emagreceu. A mãe não tinha o costume de levar ao médico; uma prima que trabalhava na cervejaria Astra tinha direito a um e conseguiu a consulta. A prima era próxima do general Assis Bezerra, ex-secretário da Fazenda do Ceará, e ele foi junto; ela lembra que ele notou as manchas nas mãos dela. O médico perguntou o que ela mexia que pudesse estar intoxicando, e a prima respondeu que ela pintava para Chico da Silva. O tratamento foi leite, para cortar a tinta.

O general conhecia o trabalho de Chico e pediu à menina que pintasse um quadro para ele. Ela disse que não podia. Chico havia dito que ela nunca admitisse que sabia pintar, senão iria parar no juizado de menores e seria tomada da mãe. Então o general a levou a um lugar onde ela pudesse pintar, e esse lugar foi o jornal.

O Globo, naquele junho, conta a ordem dos fatos ao contrário: ela pintou primeiro um Dragão para o general, e foi por ele encorajada a levar a história a público, sem nenhum sentido de “vingança ou desmoralização”, como ela fazia questão de acentuar. Essa reportagem a apresenta calada até então, temendo as represálias que Chico havia prometido. Em O Cruzeiro, nas palavras dela, “êle ainda não me ameaçou de nada”. Os dois relatos concordam no general como pivô e discordam sobre haver medo.

Junho de 1969

A Gazeta de Notícias publicou em 12 de junho de 1969, sob o título “Moça Pintava os Quadros de Chico Silva”. Estrigas guarda a abertura do depoimento dela: “Meu nome é Maria Augusta. Mais precisamente Maria Augusta do Carmo Moreira. Tenho quinze anos de idade e pinto desde o grupo escolar, com lápis de cor. Estou, agora, fazendo o exame de admissão, mas não sei se vou poder continuar meus estudos. Pintura, nunca estudei. Moro no Largo dos Santos, próximo ao bairro Nossa Senhora das Graças, onde é a casa do Chico Silva.”

Sentaram-na na redação com tela e tintas e a fotografaram trabalhando, o que ela diz só ter percebido depois. Quando terminou, pediram que assinasse. Ela escreveu o nome, que sabia escrever, e ainda apertou o dedo na tinta, porque era o que tinha visto Chico fazer e pensou que fosse assim que se fazia.

Chico negou tudo. Disse a O Globo que havia transmitido a ela algumas noções de desenho e pintura porque era sua vizinha e se apresentara como admiradora incondicional, que a intenção era ajudá-la a cursar uma escola profissional, e que a menina jamais pintara qualquer quadro para ele e não tinha aptidão para produzir algo que se assemelhasse à sua obra. A O Estado de S. Paulo disse que, quando começou a pintar, a menina não havia nascido, e se ofereceu para qualquer teste. Depois a desafiou.

Ela foi. Ele não. O Cruzeiro é explícito, em agosto: ele desafiou Maria para pintarem juntos na TV, “êle faltou ao trato. Maria Augusta foi.” O Globo pôs o teste na primeira página de 18 de junho com o título “O teste dos peixes”, com uma fotografia dela ao cavalete, e noticiou que havia pintado dragões, peixes e pássaros voadores idênticos aos que consagraram a obra dele. Ele seguiu repelindo a acusação, chamou-a de ignomínia e disse que seu estilo era inconfundível.

O GloboRio de Janeiro, 18 de junho de 1969, p. 1
Box de primeira página com o título "O teste dos peixes": uma adolescente sentada ao cavalete pinta um grande peixe escuro, com fileiras de potes de tinta ao lado.
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"O teste dos peixes", na primeira página: Maria Augusta, quinze anos, pinta dragões, peixes e pássaros diante do cavalete numa redação de Fortaleza, aceitando o desafio do pintor que ela acusou.O Globo, Rio de Janeiro, 18 de junho de 1969, p. 1. Acervo O Globo.

Cinquenta e sete anos depois, ela tira o ferrão da história. O desafio não foi vitória sobre ele, disse à TVDD: foi como um debate a que o outro candidato não vai, e não comparecer era direito dele.

Sobre dinheiro, as contas não fecham. O Globo a apresenta rompendo com Chico no segundo semestre de 1968 por achar mínima a remuneração, dois cruzeiros novos por três quadros, e O Cruzeiro carrega a frase que a acompanha desde então: “daí em diante, meus quadros começaram a ser vendidos e eu nunca senti o cheiro do dinheiro.” Na mesma entrevista ela perdoa o que lhe devem: “êle me deve vinte cruzeiros novos que não vou cobrá-los.” Hoje ela diz que ele pagava à mãe toda semana, que o dinheiro sustentava a família e que é grata. Garcia, que foi pago desde o início, diz que a paga existia mas era pouca, insuficiente para viver, e foi por isso que saiu para São Paulo em 1973. O que cai é a acusação de trabalho não pago; o valor segue em disputa.

O CruzeiroRio de Janeiro, 7 de agosto de 1969, p. 62
Página de revista sobre fundo azul: o texto abre com a afirmação de que muitos quadros assinados Chico Silva foram pintados por uma menina de quinze anos; a fotografia mostra um homem de óculos escuros a uma mesa.
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O depoimento de Maria Augusta em primeira pessoa, em página inteira: quadros dela vendidos sob outra assinatura, o desafio de pintar na televisão, o encontro ao qual ele faltou. A fotografia mostra o advogado Venelouis Pereira, cujo jornal já apreendera trezentos quadros.O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 7 de agosto de 1969, p. 62. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Chabloz, que havia encontrado Chico em 1943 e a essa altura já tinha rompido com ele, deu ao O Povo a sua leitura em 30 de junho. Anos antes a menina lhe pedira algumas aulas de desenho e, para mostrar do que era capaz, lhe apresentara pedaços rasgados de uma pintura muito parecida com os guaches de Chico; cobrada, explicou que em matéria de pintura nada tinha feito senão colorir composições que Chico rabiscara. É onde todo aprendizado naquela casa começava, segundo a descrição de Galvão: enchendo os campos dentro do risco de outra mão.

O episódio tem um final que os livros passam por cima. Estrigas cita um texto do jornalista Francisco Auto, “Vítima do Mercado”: no segundo dia da exposição no hall da Gazeta de Notícias, Maria Augusta já havia vendido todos os trabalhos expostos, com preços entre trinta e sessenta cruzeiros. Os cinco pintores do núcleo original passaram a assinar com o próprio nome na terceira EXANOR, em março de 1977. Ela fez isso oito anos antes, pelo acaso de ter sido posta fora do arranjo.

O nome na tela

A tela da coleção é de quatro anos depois daquele mês. Peixe Fantástico é guache sobre tela, quarenta por sessenta centímetros, e a assinatura no canto inferior esquerdo diz Maria Augusta, com a data embaixo: 25-11-73. Um peixe grande olha para a esquerda com a boca aberta, o interior rosa e os dentes brancos. Três discos se alinham pelo corpo, cada um com o centro preto dentro de anéis amarelos e vermelhos, com raios brancos saindo deles como pequenos sóis. O preto do corpo está todo trabalhado em espirais pontilhadas, o clichê que ela descreveu à TVDD, e as barbatanas se abrem acima e abaixo em verde, azul e vermelho finos. Cinco tufos da mesma alga verde ficam em volta.

Peixe Fantástico, Maria Augusta, 1973
Peixe Fantástico (1973), Maria Augusta

Tela da escola assinada pelo discípulo e datada em vida de Chico é raridade, porque o arranjo era Chico assinar. Ela continuou pintando o mesmo bestiário que ele lhe pôs na frente, e a mão e o nome são dela.

O que veio depois

Os convites vieram depois de 1969. Ela foi chamada para a Escola de Belas Artes no Rio de Janeiro. A atriz Bibi Ferreira mandou passagem de avião para que ela pintasse no programa dela na televisão. Não foi: a mãe não viajava de avião, e ela era nova demais para ir sozinha. Acha que a carreira talvez tivesse ido mais longe se tivesse ido. Expôs em Fortaleza e vendeu. O Colégio Batista Santos Dumont comprou o material de umas cinquenta telas e montou uma mostra que vendeu tudo, com o pintor Barrica cuidando da montagem e dos preços; o colégio guardou uma pintura dela na recepção, e uma tela daquele período, datada de 1998, ficou com ela. Pagou os estudos do irmão Aristides com o que a pintura rendeu.

A mãe morreu em 1995 e ela parou. “Não conseguia mais colocar na tela porque, para mim, na época, eu não via mais sentido em tudo aquilo se ela não estivesse mais comigo”, disse ao O Povo. Foi trabalhar em casa de família, no Passaré, do outro lado de Fortaleza, e viveu disso. Numa dessas casas conheceu Margarida Garcia, que a acompanha hoje e a quem ela chama de neta.

Mulher idosa de cabelo branco solto e blusa azul-escura sorri ao sol diante de uma tela azul grande com peixes fantásticos, um deles escuro e com discos vermelhos como olhos.
Maria Augusta em outubro de 2024, aos setenta, diante de uma tela dela. A palavra DEUS está pintada na borda de cima.Foto de Lorena Louise / Especial para O POVO.

Voltou a pintar. O que mostrou à TVDD em 2026 é de 2025: um dragão com o filhote, e uma flor, que ela diz ser a marca dela no bestiário da escola. A flor está ali para dizer que o dragão é manso. Da palavra que a crítica usou para todos eles ela tem uma leitura própria, que ofereceu ao entrevistador antes que ele perguntasse: primitivista vem de prima, como em obra prima, e de vista, porque a gente vê. A tela dela está no índice de pinturas, na seção do que um discípulo assinou com o mestre vivo.