Primitivo, naïf, indígena

Oitenta anos de crítica sobre Chico da Silva, de Rubem Navarra em 1945 às curadorias dos anos 2020: cada geração trocou o rótulo, e nenhuma fechou a questão.

Nenhuma palavra colou nesta pintura por muito tempo. Em 1945 ela era indígena; nos anos 1950, primitiva; nos anos 1970, naïf, primitivista ou folclórica, conforme o jornal; a partir de 2020, indígena outra vez, mas por motivos diferentes dos de 1945. O que muda de década em década não é a obra, que ficou notavelmente estável em quarenta anos. É quem está olhando, e o que essa pessoa precisa que a pintura signifique.

1945: o primeiro rótulo já vinha com a briga junto

A primeira crítica nacional saiu da coletiva de artistas cearenses que Chabloz montou na Galeria Askanasy, no Rio, em 1945. Rubem Navarra assinou a apresentação e achou os guaches “qualquer coisa de muito sério”: um exemplo, escreveu, do que existia em potencial na sensibilidade indígena, capítulo que a arte brasileira ainda não tinha escrito. Chamou o pintor de uma espécie de Dali em estado de natureza.

De Fortaleza, o pintor Mário Baratta respondeu nas colunas de O Estado e discordou da comparação: onde Navarra via Dali, ele via “muito maiores aproximações” com Raoul Dufy. No mesmo texto Baratta fundou o argumento que ia acompanhar essa obra pelas quatro décadas seguintes, o da pureza que não se pode contaminar. A partir dali, todo elogio traria embutida uma condição: continue sendo o que você era quando te encontramos.

Um inseto fantástico de grande porte atacando outro menor sobre fundo azul. Animais Fantásticos, Chico da Silva, 1978, acrílica sobre tela.
Animais Fantásticos (1978), Chico da Silva

1952: o ciclo inteiro da pintura ocidental

Chabloz levou os guaches para a Europa e escreveu sobre eles onde podia. Em dezembro de 1952 publicou nos Cahiers d’Art, em Paris, o artigo cujo título já era uma tese: “Un indien brésilien ré-invente la peinture”, um índio brasileiro reinventa a pintura. O argumento é que aquele homem tinha percorrido sozinho, em poucos anos, o ciclo que a pintura ocidental levou séculos para andar, do arcaísmo ao moderno. Nas revistas de arte, apresentava-o como gloriosamente primitivo, divinamente analfabeto e, acima de tudo, um artista notável a quem só faltara oportunidade.

Vale reter a estrutura da frase, porque ela volta: as duas primeiras qualidades são condições de origem, e a terceira é mérito. Enquanto as três andaram juntas, o elogio funcionou. Quando a origem deixou de garantir o mérito, o mesmo autor rompeu.

1966: o crítico que recusou a palavra

Clarival do Prado Valladares, que escolheu doze guaches para a delegação brasileira em Veneza, foi na direção contrária da corrente que o cercava. Em 1966 escreveu que Chico da Silva não tinha nada de primário: era um profissional com quase trinta anos de ofício. Leu a pintura como a fixação individual de uma mitologia oral amazônica, ou seja, como trabalho de um autor sobre um repertório coletivo, e não como emanação espontânea de uma origem.

Foi voto vencido. A menção honrosa que o júri deu naquele ano foi descrita pelo próprio Valladares como inédita para um primitivo na história da Bienal, e a palavra ficou na descrição do prêmio.

Homem idoso e grisalho, sem camisa, ri de perfil enquanto se curva sobre uma prancha escura posta na mesa, a mão esquerda segurando o papel e a direita conduzindo um instrumento fino sobre uma ave de asas abertas, desenhada em branco sobre o fundo escuro. Reprodução em preto e branco frio.
Rindo, curvado sobre a prancha na mesa, ele puxa fio a fio a plumagem de uma ave. É o olhar mais próximo que a coleção tem da mão em trabalho.Autoria não identificada.

1969: a régua que o rompimento deixou

Quando o ateliê do Pirambu virou assunto público, em 1969, Chabloz rompeu e levou junto o critério. Passou a sustentar que só os guaches das suas duas estadas, 1943 a 1945 e 1947 a 1949, resistiam a qualquer imitação. Oito anos depois, Lélia Coelho Frota salvava exatamente a mesma primeira fase. Essa régua saiu da crítica e entrou no mercado, onde continua: a fábrica de quadros mostra o que ela fez com os preços.

No calor do caso apareceu também a comparação que ainda hoje é a mais usada em defesa do ateliê. Em julho de 1969, o crítico José Roberto Teixeira Leite aproximou a oficina do Pirambu das de Rubens e Caravaggio, com uma ressalva que costuma ser esquecida por quem cita a frase: aqueles supervisionavam o que saía com o seu nome.

A régua separa por data, não pelo que está no papel. Ave Fantástica e Filhotes, guache sobre papel de cerca de 1969, é da fase que ela descarta: a ave ocupa a folha inteira, o pescoço riscado ponto a ponto de ponta a ponta, e cada faixa do corpo resolvida em fileiras de contas.

Uma ave enorme de pescoço curvo e miçangado, com o corpo enrolado, pousada acima de quatro aves pequenas e de crista. Ave Fantástica e Filhotes, Chico da Silva, c. 1969, guache sobre papel.
Ave Fantástica e Filhotes (c. 1969), Chico da Silva

1977: dois estudos lado a lado, e conclusões opostas

O melhor momento dessa fortuna crítica está num único número da Revista de Ciências Sociais da universidade cearense, em 1977, onde dois estudos sobre o mesmo caso saíram um ao lado do outro.

Lélia Coelho Frota propôs a categoria de liminaridade: o pintor estaria entre dois mundos, sem pertencer inteiramente a nenhum. Reivindicou “primitivo” como termo positivo, e julgou a obra tardia o caso mais extremo de descaracterização de um primitivo pelo mercado. Já em 1977 escrevia que ele não executava mais os trabalhos que circulavam com o seu nome e a sua “pretensa impressão digital”.

David Silberstein, que acompanhou o circuito de perto e depois participaria do painel coletivo Homens Trabalhando, inverteu a acusação. Leu o caso pela chave do colonialismo: explicou o ataque de Chabloz pela nostalgia de um paraíso perdido, e sustentou que a crítica reduzira a obra ao exotismo amazônico, apagando o que nela era nordestino e urbano. A pintura não teria sido corrompida pelo mercado; ela teria sido lida errado desde o começo.

Correio do CearáFortaleza, 16 de março de 1977, p. 4
Coluna estreita de jornal, título "O Homem e as Coisas" em duas linhas, subtítulo "Os Pintores do Pirambu" e um segundo subtítulo no meio do texto.
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"O Homem e as Coisas: Os Pintores do Pirambu". A coluna comenta a mostra do grupo na III EXANOR e recomenda comprar um trabalho assinado por Babá, Francisca, Ivan, Claudionor ou Garcia em vez de arriscar a compra de uma suposta pintura de Chico da Silva.Correio do Ceará, Fortaleza, 16 de março de 1977, p. 4. Portal da História do Ceará.

No mesmo ano, o jornal Movimento fez a pergunta mais curta e mais difícil de todas: por que a criação de Chico da Silva e dos outros pintores pobres é chamada de indústria, e não de escola? A revista Arte Hoje respondeu no ano seguinte que o caráter coletivo nunca tinha sido segredo, e que o mercado preferia não ver.

Anos 1970 e 1980: quatro palavras em rodízio

Fora da academia, a imprensa alternava sem muito critério entre primitivo, naïf, primitivista e folclórico. Os quatro termos apareciam às vezes na mesma página. Nenhum deles era neutro: todos situavam a obra num anexo da arte brasileira, com regras próprias e teto próprio, e é por isso que a discussão sobre o rótulo nunca foi só semântica.

A partir de 2020: a reclassificação

Quando os museus voltaram a essa pintura, trocaram a palavra. Em 2020, a apresentação de Rodrigo Moura para a mostra do El Museo del Barrio recusa expressamente naïf e primitiva por pejorativas e redutoras. Em 2023, Jochen Volz, diretor da Pinacoteca de São Paulo, escreveu que a obra fora por décadas rotulada superficialmente como naïf, regional e decorativa. A cobertura internacional daquele ano passou a tratar o pintor como precursor de uma geração de artistas indígenas.

Junto com a palavra, mudou a ideia de autoria. Thierry Freitas, que assinou a mostra de 2023, propõe trocar a figura do gênio primitivo pela do articulador cultural e recusa a ideia de cópia: todos os membros da Escola do Pirambu fizeram “Chicos”, e todos eles são singulares. Oswald Barroso sustenta que não houve falsificação e sim o choque entre um fazer coletivo e um mercado que exige assinatura individual.

A socióloga Gerciane Oliveira, que estuda o caso há mais de uma década, chama o movimento de reclassificação e faz a observação mais incômoda do conjunto: ele reabilita menos o pintor do que a sua condição de artista indígena. Ela argumenta que nem os traços formais nem a filiação paterna bastam para fundar a classificação, sobretudo diante da negação de ancestralidade tribal pelo próprio artista, e nota o que a chave indígena empurra para o fundo: a inscrição dele no Pirambu, que é território urbano e periférico, e as referências de cinema e de publicidade que estão na obra, do jacaré do rótulo de querosene aos monstros de filme.

Nem entre os artistas indígenas a leitura é unânime. Jaider Esbell, que apontava a influência dele, referia-se a ele como artista mestiço.

O Estado de S. Paulo21 de novembro de 2023, p. C3
Página de jornal moderna: manchete sobre a redescoberta do pintor, fotografia em preto e branco dele segurando uma pintura de peixe e reprodução em cores de uma árvore cheia de pássaros.
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"Artista indígena, Chico da Silva é redescoberto e ganha mostra em Nova York": a reportagem do New York Times reimpressa em São Paulo, com o pintor fotografado em 1972 e as retrospectivas da Pinacoteca de São Paulo e da Pinacoteca do Ceará.O Estado de S. Paulo, 21 de novembro de 2023, p. C3. Acervo Estadão.

O que ele próprio dizia

Há uma versão que nenhuma das escolas críticas adotou, e é a do interessado. Perguntado em 1972 se aqueles mundos eram recordação da infância amazônica, a leitura que o acompanhava desde 1945, ele recusou: “isso se chama imaginação, ciências ocultas, astronomia”. Sobre os monstros, oferecia duas explicações que ninguém citou em catálogo: tinha visto aquilo no cinema, e chamava as visões de alucinações que chegam com a cachaça.

Oitenta anos de crítica e o rótulo continua se movendo. A pintura, essa, está parada no mesmo lugar desde os muros da Praia Formosa, esperando que alguém a descreva sem precisar primeiro decidir de onde ela veio.

Um dragão de chifres e cauda escamada, sob um galho onde se enrolam duas cobras listradas. Dragão e Serpente, Chico da Silva, 1973, acrílica sobre papel.
Dragão e Serpente (1973), Chico da Silva