Arte e artistas

Maria Auxiliadora: pintura, relevo e vida em São Paulo

Conheça a pintura de Maria Auxiliadora da Silva em Umbanda, Capoeira, Três mulheres e Velório da noiva, entre os tecidos, o relevo e a vida em São Paulo.

Uma mulher afasta a cortina enquanto outras duas conversam sobre os encontros da noite. Em outro quadro, jogadores de capoeira ficam de cabeça para baixo, entre músicos e árvores. Maria Auxiliadora da Silva (1935–1974) pintou essas cenas com atenção aos vestidos, aos penteados e aos gestos de cada pessoa. Em suas telas, a vida de mulheres negras e as práticas culturais afro-brasileiras ocupam o primeiro plano.123

Para conhecer sua pintura, vale acompanhar o que acontece entre as figuras e olhar a própria superfície: há tecidos aplicados e partes que se projetam para fora da tela. A variedade dos materiais ajuda a distinguir uma roupa da outra e dá volume aos corpos.14

Da família de artistas às feiras de São Paulo

Maria Auxiliadora nasceu em Campo Belo, Minas Gerais, em 1935, e foi com a família para São Paulo ainda criança. Trabalhou como empregada doméstica e bordadeira. A historiadora Raquel Barreto situa sua atividade artística profissional entre 1968 e 1974, ano em que morreu de câncer, aos 39 anos.5

Sua formação aconteceu também dentro de casa. A mãe, Maria Almeida da Silva, era escultora; outros familiares pintavam e escreviam. Maria Auxiliadora participou do grupo de artistas reunido em torno do poeta Solano Trindade, em Embu das Artes, e expôs na Praça da República. O fundo documental da artista, preservado no Centro de Pesquisa do MASP, reúne registros dessa circulação.65

Os bairros paulistanos da Casa Verde e da Brasilândia aparecem na leitura que o MASP faz de sua produção. O museu organizou individuais em 1981 e 2018; nesta última, os curadores Adriano Pedrosa e Fernando Oliva aproximaram os quadros do convívio familiar e das manifestações afro-brasileiras que a pintora conhecia.3

Uma superfície feita de tinta, massa e tecido

O relevo é uma das maneiras de reconhecer suas pinturas. Maria Auxiliadora misturava materiais e chegou a incorporar mechas do próprio cabelo. A técnica varia de quadro para quadro: a ficha de Umbanda registra óleo sobre tela; Três mulheres reúne tinta PVA, massa de poliéster e tecido.41

Na reprodução, a luz deixa ver pequenas sombras junto às partes salientes. O olhar pode seguir uma dobra ou uma borda de roupa e perceber onde o desenho ganha espessura. As cenas abaixo permitem acompanhar essas diferenças.

Umbanda, 1968: a cerimônia ocupa o interior

Num cômodo de paredes escuras, pessoas com colares participam de uma cerimônia diante de um altar; dois músicos tocam tambores e uma criança fica junto à mulher de saia lilás.

Umbanda, 1968. Óleo sobre tela, 50,3 × 62 cm.

Maria Auxiliadora da Silva. Acervo MASP, MASP.10732. Fotografia: MASP. Ficha no MASP.

O altar ocupa o lado esquerdo; ao centro, dois músicos tocam atabaques. Uma figura deitada atravessa o chão, enquanto um homem à direita ergue os braços. Os colares coloridos e as faixas brancas das roupas se separam do cinza das paredes. Ao fundo, uma paisagem emoldurada abre outro espaço dentro do cômodo.4

Adriano Pedrosa identifica no altar São Sebastião associado a Oxóssi, um Preto-Velho e São Lázaro associado a Obaluaê. O texto do MASP também reconhece a mãe de santo de branco, com um charuto, junto à criança. São identificações feitas pelo curador a partir da cena e de seu repertório religioso.4

O quadro pode ser percorrido pelas mãos: uma toca o tambor, outras se erguem ou se aproximam do corpo no chão. A cerimônia se distribui pela sala inteira, com ações em alturas diferentes. O título nomeia a prática que reúne essas pessoas.

Capoeira, 1970: corpos que mudam a direção do olhar

Jogadores se apoiam nas mãos e erguem as pernas entre árvores, músicos e espectadores de roupas estampadas; pequenas casas rosas aparecem ao fundo.

Capoeira, 1970. Técnica mista sobre tela, 69,5 × 75 × 1,5 cm.

Maria Auxiliadora da Silva. Acervo MASP, MASP.00827, doação Pietro Maria Bardi, 1981. Fotografia: MASP. Ficha no MASP.

Os corpos invertidos fazem o olhar girar. Mãos encostam no chão, pernas se abrem e cabeças aparecem junto dos instrumentos. O movimento continua nos galhos escuros das árvores, que cruzam o alto da pintura. Pequenos tufos verdes se repetem por quase todo o terreno.2

As roupas oferecem outros percursos. Listras vermelhas e claras acompanham braços e pernas; calças amarelas atravessam o centro e voltam a aparecer perto dos músicos. Cada figura ocupa uma posição legível, mesmo quando as pernas de uma passam perto do rosto de outra.

Perto das bordas, há pessoas de pé e músicos sentados. No alto, as casas surgem entre os troncos. A capoeira acontece junto dos lugares de moradia, num espaço compartilhado. O MASP recebeu o quadro por doação de Pietro Maria Bardi em 1981.2

Três mulheres, 1972: roupas, conversa e a noite na cidade

Duas mulheres nuas conversam sobre uma cama coberta de renda, diante de vestidos pendurados; uma terceira segura a cortina junto à janela, com balões de fala acima das figuras.

Três mulheres, 1972. Tinta PVA, massa de poliéster e tecido sobre tela, 46 × 61 cm.

Maria Auxiliadora da Silva. Acervo MASP, MASP.01634, doação Paulo Bilezikjian, 2016. Fotografia: MASP. Ficha no MASP.

Os vestidos pendurados formam uma faixa no alto do quarto. Na cama, duas mulheres conversam; outra segura a cortina. Os balões de fala contam seus planos: ir ao forró da Brasilândia ou encontrar um namorado. O texto faz parte da pintura e permite ouvir uma conversa situada na cidade.1

A renda tem peso na composição. Cobre a cama e quase esconde a mulher à direita; deixa intervalos por onde se veem a mão e parte do rosto. No tapete, as flores claras repetem os desenhos dos tecidos. Os tons da pele e as cores das roupas mudam de uma figura para outra.

O comentário curatorial do MASP lê a cena pela intimidade e pela liberdade de circulação das mulheres. A cama, as peças espalhadas e a conversa dão forma a esse tempo de preparação, antes da saída.1

Velório da noiva, 1974: pintar a própria despedida

Mulher vestida de noiva jaz num caixão azul coberto de flores; pessoas choram e uma criança segura um ramo de rosas, num quarto de parede rosa e cortinas rendadas.

Velório da noiva, 1974. Óleo e massa de poliéster sobre tela, 50 × 100 cm.

Maria Auxiliadora da Silva. Acervo MASP, MASP.01623, doação Fundação Edson Queiroz, 2015. Fotografia: Eduardo Ortega. Ficha no MASP.

A parede rosa atravessa o fundo do quadro. O caixão azul, aberto e coberto de flores, ocupa quase toda a largura. Ao redor, pessoas levam as mãos ao rosto; entre as duas crianças, a da direita segura um ramo de rosas. Uma faixa de renda branca cai da cabeceira para fora do caixão e alcança a borda inferior da pintura.7

Segundo a equipe curatorial do MASP, Maria Auxiliadora pintou autorretratos em que aparece sendo velada como noiva durante o período em que enfrentava o câncer. Velório da noiva pertence a esse contexto. O museu data a tela de 1974, ano da morte da artista.7

A renda reaparece nas janelas e no vestido. As flores têm volume, e as roupas dos presentes recebem pequenos traços e padrões. Esses detalhes mantêm a cena próxima do universo doméstico que também ocupa Três mulheres, agora com os gestos de quem acompanha uma despedida.

Maria Auxiliadora era uma pintora naïf?

A palavra faz parte da recepção de sua obra. Raquel Barreto observa que Maria Auxiliadora foi classificada frequentemente como primitiva ou naïf e critica a limitação desse enquadramento.5 Na exposição de 2018, Pedrosa e Oliva também propuseram conhecer sua pintura para além dessas categorias.3

A discussão ajuda a ler o termo como parte da história da crítica. Nos quadros, é possível acompanhar escolhas precisas: o tecido aplicado, o desenho de um penteado, a posição dos corpos ou a entrada de uma conversa escrita. Quem chega à artista pela arte naïf brasileira encontra nas obras maneiras próprias de organizar essas cenas.

As pinturas reproduzidas aqui pertencem ao MASP, em São Paulo. As fichas do museu permitem continuar a observação e consultar os dados de cada obra.

Notas

  1. MASP. Três mulheres, 1972. Ficha MASP.01634 e comentário da equipe curatorial, 2020. ↩ ↩2 ↩3 ↩4 ↩5

  2. MASP. Capoeira, 1970. Ficha MASP.00827 e reprodução da pintura. ↩ ↩2 ↩3

  3. Adriano Pedrosa e Fernando Oliva (curadoria). Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência. MASP, 2018, texto de apresentação da exposição. ↩ ↩2 ↩3

  4. MASP. Umbanda, 1968. Ficha MASP.10732 e texto de Adriano Pedrosa, 2018, reproduzido de MASP de bolso (2020). ↩ ↩2 ↩3 ↩4

  5. Raquel Barreto. Maria Auxiliadora. Fundação Bienal de São Paulo, 36ª Bienal, 2025. ↩ ↩2 ↩3

  6. MASP. Centro de Pesquisa, seção “Maria Auxiliadora da Silva Fond”. Em inglês. ↩

  7. MASP. Velório da noiva, 1974. Ficha MASP.01623 e texto da equipe curatorial, 2017. ↩ ↩2