Arte e artistas

Anselme Boix-Vives: a pintura entre a loja e o mundo

Dois guaches de Anselme Boix-Vives permitem conhecer seus animais e figuras, entre papéis reaproveitados, lembranças da Espanha e imagens da televisão.

Antes de cobrir cartões de flores e animais, Anselme Boix-Vives desenhava pássaros no verso das faturas de sua loja de frutas e verduras em Moûtiers, na Saboia.1 O papel que passava por suas mãos podia guardar uma conta ou receber uma criatura.

Boix-Vives (1899–1969) nasceu na Espanha, emigrou para a França aos dezoito anos e começou a pintar de forma continuada em 1962, já sexagenário.23 Diante dos guaches, porém, a idade do estreante logo deixa de explicar muita coisa. Há decisões bastante diferentes entre um animal que se estica por um cartão horizontal e um padre que olha para nós de dentro de uma moldura de folhas. As duas obras pertencem ao LaM, onde entraram com a doação de L’Aracine em 1999.45

O comprimento do dahu

Um animal marrom muito alongado, com duas orelhas violetas e um olho rosa e verde, avança sobre patas curtas diante de um fundo amarelo coberto de flores. O cartão aparece ao redor da pintura.

Le Dahu, 1964. Guache, pastel seco e lápis grafite sobre cartão cinza, 27,5 × 80,5 cm.

Anselme Boix-Vives. LaM, 999.134.2. Fotografia: © Nicolas Dewitte/LaM. © Adagp, Paris. Ficha do LaM.

A proporção de Le Dahu é a primeira estranheza: o cartão tem quase três vezes mais largura que altura. O animal acompanha essa faixa estreita. A cabeça fica à esquerda, duas orelhas sobem quase até o alto e uma cauda grossa desce no extremo direito. Entre elas corre um corpo marrom que parece ter sido puxado pelas duas pontas.

Sua anatomia tem uma economia curiosa. Uma linha azul acompanha o dorso, outra faixa quente passa pelo ventre, e umas poucas pernas escuras bastam para afastá-lo do chão. O olho recebeu círculos verdes e rosas; o focinho acaba numa pequena mancha de cor. Esses detalhes tornam o bicho expressivo sem explicar a que espécie pertence. A extensão do tronco continua improvável, por mais familiar que pareça a cabeça.

O corpo é a área mais escura e contínua da pintura. Ao redor dele, tudo se fragmenta. Acima há flores de pétalas rosas e centros amarelos; na parte inferior, pinceladas alaranjadas e negras passam entre as patas. O verde se divide em folhas e hastes que mudam de direção. Nenhuma linha de horizonte reúne esses fragmentos numa paisagem distante. Animal e plantas estão pressionados contra a mesma superfície.

É nessa convivência que a forma comprida encontra seu equilíbrio. Se acompanhamos o dorso da esquerda para a direita, ele quase sai do quadro; as flores nos fazem voltar, com seus centros circulares e ramificações. O dahu ocupa o cartão inteiro, mas a pintura não se esgota em sua silhueta. Acima das costas há outro percurso, entre folhas que crescem obliquamente e pétalas que mal cabem na faixa restante.

Em Duas Aves e um Inseto, guache de Chico da Silva datado de cerca de 1969, a passagem entre plantas e animais ocorre dentro da própria plumagem. As penas pontudas da ave maior têm nervuras como folhas; à direita, uma planta de folhas largas repete esse desenho em outra escala.

Uma ave de bico longo debruçando-se sobre um inseto eriçado, com uma ave menor em voo acima. Duas Aves e um Inseto, Chico da Silva, c. 1969, guache sobre papel.
Duas Aves e um Inseto (c. 1969), Chico da Silva João Cunha Collection.

A semelhança dá um ponto de apoio para voltar ao dahu. Em Boix-Vives, o corpo comprido se distingue das flores pelo marrom quase contínuo, enquanto patas e pinceladas alaranjadas começam a se confundir junto ao chão. Em Chico, o limite entre a folha e a pena atravessa o corpo do bicho. São lugares diferentes para a mesma hesitação do olhar: a marca pode pertencer à vegetação ou à anatomia. No dahu, essa hesitação aparece sobretudo na faixa comprimida sob o ventre.

As imagens que chegavam a Moûtiers

Boix-Vives usava papéis e cartões reaproveitados, guache e também Ripolin, tinta industrial vendida por um comerciante próximo. Para ampliar seu repertório de modelos, comprou uma televisão. A mostra La télé enchantée, do Musée Hébert, reuniu em 2004 pinturas feitas a partir do que ele via na tela.3 Assim, as flores e os bichos conviviam, em sua produção, com as imagens transmitidas para dentro de uma casa francesa nos anos 1960.

O MANAS identifica outra fonte: as festas, touradas e procissões lembradas da Espanha.2 O padre reproduzido abaixo pertence a esse mundo de personagens reconhecíveis, mas sua presença é alterada pela maneira como Boix-Vives pinta. A referência religiosa chega junto de um repertório de marcas que se espalha por roupa, corpo e vegetação.

Um personagem de rosto branco e grandes olhos amarelos veste roupa escura com cruzes claras. Uma cruz vermelha alta fica à direita; formas verdes, vermelhas e amarelas cercam a cabeça e o corpo.

Curé de montagne très noble, 1963. Guache sobre papel espesso, 65 × 49,7 cm.

Anselme Boix-Vives. LaM, 999.134.1. Fotografia: © Nicolas Dewitte/LaM. © Adagp, Paris. Ficha do LaM.

O rosto branco de Curé de montagne très noble tem olhos amarelos cercados de preto, nariz triangular e uma boca curta. Em torno da cabeça, pinceladas marrons e vermelhas formam uma espécie de coroa. Há cruzes claras sobre a roupa e uma cruz vermelha enorme à direita. Elas permitem reconhecer a função do personagem mesmo quando as formas ao redor parecem invadir seu corpo.

A figura mais discreta está no alto à esquerda. Uma pequena cabeça escura, com duas longas orelhas, prolonga-se num corpo estreito cheio de marcas verdes e amarelas. Ela repete a vertical do padre, mas parece pertencer a outro reino. Na parte inferior, dois grandes olhos esverdeados e linhas curvas permitem entrever mais uma presença entre as folhas. Esses vizinhos tornam o encontro com o padre menos solitário do que parecia.

Os motivos vegetais também mudam de papel a cada trecho. Uma fileira de pinceladas pode cercar a cruz vermelha como uma franja; logo ao lado, marcas semelhantes se prendem a um caule. As correntes amarelas que descem pelo peito lembram flores alinhadas. O quadro aproxima tecidos e plantas por meio de gestos do pincel, sem precisar transformar literalmente o padre em árvore.

O vermelho não fica reservado à grande cruz. Ele reaparece atrás da cabeça e entre os verdes, por toda a folha. Esse espalhamento impede que o símbolo maior detenha sozinho a atenção. O rosto permanece um ponto de retorno: seu branco reúne os olhos e a boca num espaço pequeno, cercado por cores que continuam a se mover.

Um projeto de paz, uma pintura aberta ao presente

A vida de Boix-Vives incluía um projeto de organização mundial pela paz, divulgado em manifestos e conferências.2 Em 1959 ele enviou seu plano ao secretário-geral da ONU; em 1964, já expunha na Galerie Denise Breteau, em Paris.1 Os guaches foram feitos por alguém que procurava interlocutores e acompanhava o mundo além de sua cidade.

Essa disposição não fornece uma chave única para o dahu ou para o padre. Nos dois, o interesse está também no que a pintura faz com a escala: alonga um corpo até a largura do suporte, faz uma cruz crescer à altura de um homem, dá a um pequeno olho cores suficientes para interromper o percurso. O cartão horizontal e a folha vertical impõem problemas distintos, e Boix-Vives responde a cada um deles com uma distribuição própria de figuras.

No padre, uma pincelada verde tanto pode terminar num ramo como entrar na borda da roupa. No dahu, o dorso escuro sustenta um jardim quase sem chão. Ficam essas duas imagens, difíceis de reduzir à história de uma estreia tardia: um animal que ocupa mais espaço do que sua anatomia permitiria e um homem que divide sua folha com seres que mal acabam de aparecer.

Notas

  1. Musée Hébert. Dossiê da exposição La télé enchantée, 2004, folhas 2 e 4–5 do PDF, sem numeração impressa: desenhos nas faturas, textos pela paz e cronologia de exposições. ↩ ↩2

  2. MANAS, Laval. Anselme Boix-Vives. Vida na Espanha e na Saboia, projeto de paz, temas e materiais. ↩ ↩2 ↩3

  3. Musée Hébert, Département de l’Isère. Anselme Boix-Vives. La télé enchantée. Exposição de 25 de junho a 31 de outubro de 2004: produção de 1962–1969, suportes e televisão. ↩ ↩2

  4. LaM. Le Dahu, 1964, inventário 999.134.2. Materiais, dimensões, doação e reprodução. ↩

  5. LaM. Curé de montagne très noble, 1963, inventário 999.134.1. Materiais, dimensões, doação e reprodução. ↩