Arte e artistas

Henri Rousseau: as selvas inventadas em Paris

As selvas de Henri Rousseau nasceram em Paris. Veja como o pintor reuniu plantas observadas, imagens de animais e um sofá em três pinturas.

Um tigre mostra os dentes entre folhas dobradas pela tempestade. Em outra tela, uma mulher se reclina num sofá, cercada por flores enormes e animais. Henri Rousseau (1844–1910) pintou essas florestas sem ter saído da França. As plantas que observava em Paris e as imagens de bichos que conhecia por reproduções entraram numa paisagem que ele próprio montou.12

O olhar percorre essas pinturas de folha em folha. Uma esconde a pata de um animal, outra deixa um rosto à vista; hastes e galhos atravessam o quadro sem abrir uma passagem clara para o fundo. Em três telas, é possível acompanhar como Rousseau transforma o repertório de jardins e impressos em lugares onde a distância, o tamanho e a convivência das figuras seguem regras próprias.

O modo de ocupar a folha também permite olhar para Chico da Silva. Em Aves Fantásticas e Borboleta, a asa da ave maior se abre em formas largas, parecidas com pétalas, enquanto os traços do fundo continuam entre os bichos. A vegetação que envolve as figuras de Rousseau dá lugar, aqui, a um campo de marcas coloridas. As duas imagens fazem o olhar alternar entre reconhecer o animal e seguir o desenho que o cerca.

Uma ave fantástica e alta com uma asa raiada em forma de roda, um filhote e uma borboleta listrada acima. Aves Fantásticas e Borboleta, Chico da Silva, c. 1967, guache sobre papel.
Aves Fantásticas e Borboleta (c. 1967), Chico da Silva João Cunha Collection.

De onde vieram as plantas e os animais

Rousseau era autodidata e trabalhou na cobrança de taxas em Paris. O emprego lhe deu o apelido Le Douanier, o aduaneiro. Depois de se aposentar, em 1893, continuou conhecido pelo nome do ofício. A floresta que aparece em suas pinturas vinha de um cotidiano urbano: jardins botânicos, zoológico, exposições coloniais e imagens impressas.3

No Jardin des Plantes, frequentava as estufas e podia observar plantas tropicais. O complexo também reunia animais vivos e exemplares empalhados. Segundo a National Gallery de Londres, o tigre de Surprised! combina esse repertório zoológico com ilustrações de revistas e a observação do gato doméstico. A distância entre Paris e a selva era atravessada com materiais encontrados na cidade.1

A National Gallery of Art, em Washington, registra ainda um álbum de animais, Bêtes sauvages, publicado pela loja de departamentos Galeries Lafayette e conservado no ateliê. O repertório passava pelo comércio e pela maneira como a França apresentava territórios distantes a seu público. Essas imagens forneciam bichos e plantas que Rousseau podia separar de seu contexto e reunir no quadro.3

Surprised!, 1891: a chuva atravessa as folhas

Tigre alaranjado, de dorso arqueado e dentes à mostra, avança entre folhas verdes e avermelhadas; chuva diagonal e relâmpagos cortam o céu cinzento.

Surprised! (Surpreso!), 1891. Óleo sobre tela, 129,8 × 161,9 cm.

Henri Rousseau. National Gallery, Londres, NG6421. Aquisição com apoio de doação de Walter H. Annenberg, 1972. Reprodução: National Gallery; fotógrafo não identificado na ficha. Ficha na National Gallery.

O tigre ocupa a metade inferior da tela. Sua cauda passa atrás de hastes à esquerda; o dorso alaranjado sobe em arco, enquanto a cabeça se projeta para a direita. Folhas estreitas cruzam o corpo e escondem parte das patas. É difícil fixar o chão em que o animal se apoia: a vegetação fecha o espaço por baixo e por trás dele.

Há movimento em quase toda parte. Ramos se curvam, capins se inclinam e traços claros de chuva atravessam a cena na diagonal. As listras do tigre encontram outras listras nas folhas. À direita, a folhagem vermelha interrompe os verdes e se espalha sob um dos relâmpagos. O animal se distingue pela cor e pelo rosto, mas o padrão de seu corpo continua o da mata.

Esta foi a primeira selva de Rousseau, exposta no Salon des Indépendants em 1891. A National Gallery explica que as linhas semitransparentes da chuva foram acrescentadas sobre a pintura já pronta. A chuva une, assim, áreas trabalhadas separadamente: passa sobre a copa, as folhas grandes e o tigre.1

Quem foi surpreendido? O animal tem a boca aberta e os olhos arregalados, mas nenhuma presa está visível. A ficha do museu mantém a questão em aberto e registra que Rousseau também se referiu à tela como um tigre perseguindo exploradores. O título e a imagem permitem ler tanto a ameaça do salto quanto o susto diante da tempestade.1

Floresta tropical com macacos, 1910: encontrar os bichos

Cinco macacos cinzentos e alaranjados aparecem entre folhas sobrepostas; flores brancas e amarelas e plantas vermelhas cercam uma pequena abertura no primeiro plano.

Floresta tropical com macacos (Tropical Forest with Monkeys), 1910. Óleo sobre tela, 129,5 × 162,5 cm.

Henri Rousseau. National Gallery of Art, Washington, John Hay Whitney Collection, 1982.76.7. Reprodução: NGA; fotógrafo não identificado na ficha. Ficha na National Gallery of Art.

O céu azul-claro ocupa uma faixa larga no alto. Abaixo, a floresta se constrói pela sobreposição de verdes. Folhas compridas, semelhantes a lâminas, se cruzam com folhas largas de bordas arredondadas; nos dois lados, as hastes desenham uma rede diante das árvores mais distantes. A cor dessas árvores fica mais clara ao fundo, embora seus contornos continuem nítidos.

Os cinco macacos aparecem aos poucos. Um animal cinzento se estende entre os galhos à esquerda. Outro, maior, senta no centro e vira o rosto para fora da tela. Dois alaranjados se penduram à direita, quase incorporados às hastes. Mais embaixo, o quinto está sentado numa pequena clareira. Abaixo do céu aberto, a maior parte dos corpos fica cercada ou encoberta por plantas.

A escala das flores ajuda a medir esse mundo. As pétalas brancas, na faixa inferior, chegam perto do tamanho de uma cabeça de macaco; flores amarelas se abrem ao lado dos animais alaranjados. As plantas vermelhas formam uma massa junto à borda e avançam para o centro. Antes de alcançar os bichos, o olhar precisa atravessar essa primeira camada.

A análise da NGA compara as folhas a recortes sobrepostos de um cenário teatral. O museu também chama a atenção para as hastes verdes que os macacos centrais seguram: fios pendentes sugerem varas de pescar. A observação introduz uma atividade humana dentro da cena animal e deixa a floresta ainda mais próxima de um lugar inventado por um morador da cidade.3

O sonho, 1910: um sofá no meio da mata

Mulher nua de cabelos longos se reclina num sofá marrom entre flores grandes; dois leões espreitam as folhas, e uma pessoa toca um instrumento sob a lua.

O sonho (The Dream), 1910. Óleo sobre tela, 204,5 × 298,5 cm.

Henri Rousseau. The Museum of Modern Art, Nova York, 252.1954. Doação Nelson A. Rockefeller. Reprodução: MoMA; fotógrafo não identificado na ficha. Ficha no MoMA.

O sofá ocupa a esquerda do quadro. Seu encosto arredondado envolve a mulher reclinada e forma uma grande área marrom no meio dos verdes. Ela estende um braço para o centro, onde uma pessoa quase desaparece entre os caules. O instrumento amarelo junto à boca e a roupa listrada tornam essa figura mais fácil de encontrar. Logo abaixo, dois leões olham entre as folhas.

Rousseau pintou a cena numa tela de quase três metros de largura. O móvel, o corpo e as flores se distribuem ao longo dessa extensão sem que uma clareira os reúna. As plantas crescem na frente do sofá e atrás dele; as hastes das flores sobem junto ao braço da mulher. Não se vê por onde o móvel teria chegado ou onde termina o espaço que o sustenta.

Algumas folhas parecem grandes o suficiente para cobrir um corpo inteiro. As flores abertas chegam à altura do rosto da mulher, enquanto outras passam por trás dos leões. Na parte superior, a lua clara encontra pequenos círculos de frutos alaranjados. O olho muda de escala a cada trecho: segue uma nervura, reconhece um animal, volta a uma flor.

A explicação de Rousseau, reproduzida pelo MoMA na nota de 2021, põe a mulher adormecida no sofá: ela sonha que foi transportada para a floresta e escuta a música de um encantador. A imagem reúne o corpo reclinado e aquilo que ele sonha, sem precisar desenhar uma moldura para separar os dois lugares.2

O relato do sonho dá uma razão para a presença do sofá, mas a pintura mantém sua estranheza visível. O estofado tem borda firme e curva contínua; as plantas se organizam ao redor dele com a mesma precisão que cerca os bichos. O objeto doméstico ocupa a mata por inteiro. Perto do centro, o som que a mulher ouviria depende de localizar um pequeno instrumento entre dezenas de folhas.

Uma árvore entre os bichos de Chico

Um dragão de chifres e cauda escamada, sob um galho onde se enrolam duas cobras listradas. Dragão e Serpente, Chico da Silva, 1973, acrílica sobre papel.
Dragão e Serpente (1973), Chico da Silva João Cunha Collection.

Em Dragão e Serpente, de 1973, um tronco escuro sobe pela margem esquerda e separa a cabeça comprida do dragão de um corpo sinuoso. Os galhos têm pontas cortadas e deixam à vista faixas amarelas do fundo. Em O sonho, folhas sucessivas escondem os bichos; neste quadro de Chico, a árvore é uma estrutura estreita em torno da qual se distribuem corpos e áreas de cor.

O dragão ocupa quase toda a largura. O pescoço sobe, o dorso forma um arco e a cauda se ergue até o canto superior direito. Pequenos círculos dividem a área alaranjada do corpo; traços curtos cobrem as pernas e o fundo. O espaço se organiza pelo encaixe dessas superfícies, enquanto Rousseau acumula folhas em planos sobrepostos. A comparação pode continuar nas pinturas de Chico, cujas fichas permitem ampliar cada obra e consultar técnica e dimensões.

Notas

  1. The Museum of Modern Art, Nova York, Henri Rousseau, The Dream, ficha 252.1954 e notas de sala de 2011 e 2021. Repertório parisiense e explicação do sonho atribuída ao pintor. ↩ ↩2

  2. National Gallery of Art, Washington, Tropical Forest with Monkeys, texto sobre a obra e ficha técnica, 1982.76.7. Trajetória do pintor, álbum Bêtes sauvages, leitura dos macacos e comparação com cenário teatral. ↩ ↩2 ↩3