Arte e artistas
Mestre Vitalino: cenas da vida no barro
Veja como Mestre Vitalino conta histórias com figuras de barro: o barbeiro, o agrimensor, a aplicação de uma injeção e a volta da roça em quatro esculturas.
Um barbeiro apoia a cabeça do cliente enquanto aproxima a navalha de seu rosto. Um agrimensor trabalha sob uma sombrinha, com dois auxiliares. Numa fila, cinco pessoas levam ferramentas e cargas ao voltar da roça. Nas esculturas de Mestre Vitalino, a posição de cada corpo ajuda a contar o que está acontecendo.123
Vitalino Pereira dos Santos (1909–1963) viveu na região de Caruaru, em Pernambuco, e vendeu suas peças na feira da cidade. Seu repertório inclui cenas de trabalho, festas e acontecimentos da vida familiar. Quatro grupos do Museu do Homem do Nordeste permitem observar como ele reúne essas histórias num espaço de poucos centímetros.45
Da louça de casa aos grupos de figuras
Vitalino começou a modelar ainda criança, aproveitando sobras do barro com que sua mãe fazia utensílios. Pequenos animais e brinquedos iam para a feira de Caruaru. Essa aprendizagem ocorreu no convívio com a produção de louça, antes de suas esculturas entrarem em exposições e coleções.45
Em 1947, Augusto Rodrigues levou peças suas a uma exposição no Rio de Janeiro. Vitalino passou a ser conhecido fora de Pernambuco e participou de outras mostras. No Alto do Moura, ensinou a modelagem a familiares e vizinhos. O Museu do Pontal relaciona o título de mestre tanto ao domínio do ofício quanto à formação de outros ceramistas.5
Nas quatro obras reproduzidas aqui, uma base sustenta as pessoas e os objetos necessários à ação. A quantidade de figuras muda conforme a história: duas para uma aplicação de injeção, três para medir um terreno, cinco para voltar da roça. O chão estreito aproxima os corpos e permite acompanhar as relações entre eles.
Enfermeiro aplicando injeção

Enfermeiro aplicando injeção, segunda metade do século XX. Cerâmica, 22 × 8 × 15,5 cm.
Mestre Vitalino. Acervo Museu do Homem do Nordeste, Fundação Joaquim Nabuco. Fotografia: Dudu Schnaider / Acervo do Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira. Ficha do Museu do Homem do Nordeste.O enfermeiro está à esquerda, com as mãos próximas ao braço do paciente e um instrumento fino junto ao ombro. O homem de calças amarelas deixa os braços caídos e vira o rosto em direção ao atendimento. Os dois estão de pé, quase da mesma altura, presos à mesma faixa de chão.6
O gesto fica visível no pequeno intervalo entre os corpos. O braço estendido do enfermeiro e a linha fina do instrumento atravessam esse espaço vazio. Vitalino reúne a identificação da profissão, pela roupa branca, e o momento preciso do procedimento. Os olhos circulares e as bocas pequenas permanecem bem legíveis, mesmo com poucos traços.
As perdas de pintura deixam o barro aparente em partes do uniforme. No paciente, o torso descoberto se separa das calças amarelas por uma faixa clara na cintura. A diferença entre roupa e pele ajuda a localizar o ponto em que os dois se tocam. O assunto cabe num par de figuras, sem móveis ou outros personagens ao redor.
Agrimensor

Agrimensor, segunda metade do século XX. Cerâmica, 21,5 × 12,5 × 28,5 cm.
Mestre Vitalino. Acervo Museu do Homem do Nordeste, Fundação Joaquim Nabuco. Fotografia: Dudu Schnaider / Acervo do Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira. Ficha do Museu do Homem do Nordeste.Três homens ocupam a base comprida. À esquerda, o agrimensor encosta o rosto num aparelho montado sobre um tripé. O homem de azul segura a sombrinha sobre ele; na outra extremidade, um auxiliar mantém uma vara de pé. O texto do museu identifica o aparelho como teodolito e a vara usada na medição como mira.27
A distância entre os homens faz parte do trabalho. O espaço aberto no centro permite seguir a direção do instrumento até o auxiliar. A sombrinha reúne as duas figuras da esquerda sob uma grande forma clara e inclinada. Do outro lado, a vara estreita sobe quase sozinha, diante do corpo de camisa cinza.
As roupas também distribuem as funções. O conjunto claro do agrimensor se aproxima da cor do aparelho e da sombrinha. A camisa azul torna visível o homem que trabalha atrás dele, embora seu corpo fique parcialmente encoberto. Os pés e as hastes do tripé se espalham no mesmo chão cinza, cuja borda azul delimita o lugar da cena.
Há pouca paisagem para indicar uma medição de terreno. É a relação entre os três homens e seus instrumentos que torna o ofício reconhecível. O vão entre os dois lados do grupo contém uma parte da ação: olhar de um ponto em direção a outro.
Barbeiro

Barbeiro, segunda metade do século XX. Cerâmica, 20 × 11,5 × 18,5 cm.
Mestre Vitalino. Acervo Museu do Homem do Nordeste, Fundação Joaquim Nabuco. Fotografia: Dudu Schnaider / Acervo do Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira. Ficha do Museu do Homem do Nordeste.O cliente está reclinado, com a cabeça apoiada na mão do barbeiro. Uma área branca cobre parte do rosto e do peito; a navalha chega perto do queixo. O barbeiro se inclina por trás da cadeira, de casaco verde e gravata vermelha. Os corpos se encontram num ponto pequeno, junto ao rosto de quem está sentado.1
À esquerda, a bancada amarela sustenta um espelho oval e os instrumentos. O conjunto tem objetos miúdos sobre o tampo, entre eles uma tesoura e frascos, identificados também pelo texto do museu. A cadeira tem braços curvos e uma base clara. Móvel, bancada e personagens ocupam quase toda a placa de chão.7
Comparada à aplicação da injeção, esta cena tem uma organização mais fechada. O braço do barbeiro contorna a cabeça, o cliente se encaixa na cadeira e a bancada limita o espaço à frente. O corpo reclinado conduz o olhar para cima, até o gesto sobre o rosto. Vitalino constrói um interior com poucos móveis, próximos o bastante para que cada um participe do atendimento.
Volta da roça

Volta da roça, segunda metade do século XX. Cerâmica, 23 × 7 × 27 cm.
Mestre Vitalino. Acervo Museu do Homem do Nordeste, Fundação Joaquim Nabuco. Fotografia: Dudu Schnaider / Acervo do Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira. Ficha do Museu do Homem do Nordeste.Cinco pessoas se alinham de perfil, voltadas para a esquerda. A menor está na frente; a mais alta, atrás. Duas mulheres de vestido ocupam o meio do grupo. Ferramentas repousam sobre os ombros, e duas figuras equilibram cargas na cabeça. A placa estreita sob os pés acompanha a direção da caminhada.3
O tamanho crescente dos corpos dá à fila um contorno em subida. Os cabos das ferramentas repetem diagonais próximas ao pescoço; entre as figuras, restam passagens pequenas de fundo branco. O preto do vestido central e o vermelho do vestido ao lado separam duas grandes áreas verticais. Nas extremidades, os chapéus projetam suas abas para fora do corpo.
A cena ganha movimento pela repetição com pequenas diferenças. As cabeças seguem a mesma direção, mas as mãos mudam conforme a carga. Uma sustenta a ferramenta, outra se aproxima de um recipiente junto ao corpo. O título situa o retorno da roça; os objetos carregados ajudam a ligar a caminhada ao trabalho que acabou de ser feito.
O aprendizado no Alto do Moura
O trabalho de Vitalino continuou nas mãos de seus filhos e de outros ceramistas que aprenderam com ele. Manuel Vitalino, por exemplo, começou a modelar brinquedos na infância e acompanhava o pai à feira. Segundo o Museu do Pontal, ele retomou os tipos criados por Vitalino e aperfeiçoou a Família de retirantes.8
Essa transmissão ajuda a entender por que um mesmo assunto aparece em peças de autores e épocas diferentes. Ao consultar uma coleção, o nome de quem modelou e a identificação da obra permitem distinguir esses trabalhos. Nas quatro esculturas deste artigo, o Museu do Homem do Nordeste registra a autoria de Vitalino Pereira dos Santos.6213
A antiga moradia do artista no Alto do Moura é hoje a Casa-Museu Mestre Vitalino. Já o Museu do Homem do Nordeste permite continuar o percurso pelas imagens de seus grupos, com cenas de cirurgia, convivência em torno de uma mesa e trabalho doméstico.97
Para comparar a distribuição de tarefas numa escultura e numa pintura, a Casa de farinha de Djanira oferece outro caminho. Ali, uma bancada curva aproxima os trabalhadores. Em Agrimensor, a própria distância entre as figuras permite reconhecer o que fazem.
Notas
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Museu do Homem do Nordeste, Fundação Joaquim Nabuco. Barbeiro. Google Arts & Culture. Ficha e reprodução. ↩ ↩2 ↩3
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Museu do Homem do Nordeste, Fundação Joaquim Nabuco. Agrimensor. Google Arts & Culture. Ficha e reprodução. ↩ ↩2 ↩3
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Museu do Homem do Nordeste, Fundação Joaquim Nabuco. Volta da roça. Google Arts & Culture. Ficha e reprodução. ↩ ↩2 ↩3
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Equipe Latinoamericana. Vitalino, Mestre. Portal Contemporâneo da América Latina e Caribe, USP. Perfil biográfico. ↩ ↩2
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Museu do Pontal. Mestre Vitalino. Formação, exposição de 1947 e ensino da modelagem no Alto do Moura. ↩ ↩2 ↩3
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Museu do Homem do Nordeste, Fundação Joaquim Nabuco. Enfermeiro aplicando injeção. Google Arts & Culture. Ficha e reprodução. ↩ ↩2
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Antonio Carlos Montenegro e Pedro Coelho. Vitalino: as esculturas do Mestre Vitalino no acervo do Museu do Homem do Nordeste. Fundação Joaquim Nabuco, no Google Arts & Culture. Fotografias de Dudu Schnaider / Acervo do Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira. ↩ ↩2 ↩3
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Museu do Pontal. Manuel Vitalino. Formação, trabalho com o pai e desenvolvimento da Família de retirantes. ↩
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Instituto Brasileiro de Museus. Casa-Museu Mestre Vitalino. Plataforma Visite Museus. Registro da instituição no Alto do Moura, Caruaru. ↩