Arte e artistas
Onde ver arte naïf brasileira na França?
O MANAS, em Laval, e o museu Cérès Franco, em Montolieu, guardam arte naïf brasileira. Obras, catálogos e o que conferir antes de planejar uma visita.
Em Laval, a presença de pintura brasileira num museu de arte naïf começou com uma iniciativa de Iracema. Em Montolieu, ela faz parte da coleção de Cérès Franco, formada entre relações com artistas, exposições e galerias. As duas cidades francesas guardam obras de Chico da Silva, mas os caminhos que levaram as pinturas até elas são diferentes.123
O MANAS, em Laval, e a Coopérative-Musée Cérès Franco, em Montolieu, permitem pesquisar esses caminhos a partir de obras identificadas. Seus acervos interessam tanto a quem prepara uma visita quanto a quem procura reproduções, títulos e referências de exposições. Antes de escolher uma data de viagem, vale localizar a pintura na documentação: uma obra pertencente ao museu pode estar em reserva ou emprestada, enquanto uma reprodução de exposição pode mostrar um empréstimo que já voltou ao proprietário.
Iracema faz a ligação com Laval
O Musée d’Art Naïf et d’Arts Singuliers ocupa o Vieux-Château, na place de la Trémoille. Quando o museu abriu em 1967, Iracema ofereceu obras de sua coleção e incentivou artistas de seu país a fazer o mesmo. A história contada pelo próprio MANAS dá a essa pintora brasileira um papel ativo na formação do núcleo. Em 1972, Jean-Pierre Bouvet, diretor e fundador do museu, viajou a São Paulo e ampliou as relações.1
Iracema, Ivonaldo, Lacerda e Neuton aparecem no relato desse intercâmbio. A seção brasileira cresceu por doações e contatos que antecedem a circulação digital de imagens. Essa origem ajuda a entender por que a pesquisa precisa passar por nomes de doadores e exposições, além do nome de cada pintor.
Em 2017, o MANAS retomou essa história na exposição Brésil, un réalisme magique, organizada em parceria com a galeria Jacques Ardiès, de São Paulo. A mostra reuniu uma seleção do acervo e empréstimos de colecionadores privados.1 Sua documentação oferece referências para continuar a pesquisa, com uma distinção necessária: as obras que participaram daquela exposição não pertencem todas ao museu.
Um Chico no catálogo francês
O MANAS cadastra Chico da Silva sob o nome Francisco da Silva. Sua página reproduz Animaux fantastiques, guache sobre papel datado de 1966 pelo museu.4 Para procurar documentação, convém guardar as duas formas do nome e o título francês. A ficha não usa o mesmo vocabulário de uma pesquisa feita apenas por “Chico” em português.

Animaux fantastiques. Guache sobre papel, datado de 1966 no catálogo do MANAS.
Chico da Silva. Reprodução publicada pelo MANAS, Laval; fotógrafo não informado. Ficha de Francisco da Silva no MANAS.A reprodução mostra três criaturas que se aproximam por direções diferentes. A menor desce da esquerda; a figura central projeta a cabeça para cima; a ave da direita curva o pescoço e aponta o bico comprido para o encontro. Os corpos têm faixas largas de rosa, verde e azul, interrompidas por zonas de motivos menores. O amarelo entre as figuras deixa o movimento das cabeças bastante legível.
O papel é um dado da ficha, tão útil quanto o assunto. Uma fotografia pode aproximar visualmente obras de tamanhos e suportes distintos. Para comparar o que se vê no catálogo francês com outra pintura de Chico, a identificação material devolve diferenças que a tela do computador tende a apagar.
Briga de Galos, de 1972, pertence à João Cunha Collection e é um guache sobre tela de 60 × 100 cm. O formato é mais largo: os galos se enfrentam dos dois lados de um ramo verde, cercados por faixas curvas de cor que quase fecham uma moldura interna. A ave da esquerda tem uma flor de quatro pétalas no corpo; a da direita carrega espirais grandes sobre o pescoço. Mesmo antes de examinar cada marca, a largura organiza o intervalo entre os animais.
A comparação permite formular perguntas melhores ao consultar uma coleção: o suporte é papel ou tela, qual é a dimensão da obra, a reprodução mostra a pintura inteira? O guache de 1972 dá uma referência de escala e composição para essa leitura, sem ser uma peça do acervo de Laval. Em ambos os casos, a ficha individual fornece a identificação que uma busca geral por animais fantásticos não oferece.
Cérès Franco: uma coleção brasileira e internacional
Cérès Franco nasceu no Brasil em 1926, estudou nos Estados Unidos e se instalou em Paris em 1951. Trabalhou como crítica e construiu sua coleção por meio de encontros com artistas e da atividade de exposição. Em 1994, abriu ao público obras de sua coleção em duas casas em Lagrasse. O conjunto chegou à antiga cooperativa vinícola de Montolieu em 2015.3
Esse percurso explica parte da diferença em relação ao núcleo brasileiro de Laval. Em Montolieu, a arte naïf brasileira se encontra com arte popular sul-americana, CoBrA e outras produções figurativas. A apresentação do museu descreve uma coleção formada a partir dos anos 1950, com artistas de vários países.2 O interesse por um pintor brasileiro pode, assim, levar a relações de exposição e coleção que ultrapassam a divisão por nacionalidade.
A história material do museu continuou depois da formação do conjunto. A coleção foi doada em 2020; o estabelecimento recebeu a denominação Musée de France em dezembro de 2025, e reabriu em junho de 2026 após as obras de ampliação.56 Os registros anteriores à reforma continuam úteis para a história, mas a programação e o acesso devem ser procurados no site atual.
Entre as obras selecionadas na apresentação da coleção está Imaginaire Amazonien, de Francisco Da Silva.2 Outra publicação institucional, sobre a denominação Musée de France, oferece uma reprodução acompanhada de referência de inventário: Sans titre [Dragon et héron], 1966, guache sobre papel, CF 43.5

Sem título [Dragão e garça] (Sans titre [Dragon et héron]), 1966. Guache sobre papel. La Coopérative-Musée Cérès Franco, CF 43.
Chico da Silva. La Coopérative-Musée Cérès Franco, CF 43. Fotografia: Alain Machélidon / La Coopérative-Musée Cérès Franco; reprodução do Ministère de la Culture. Publicação do Ministère de la Culture.Uma criatura de boca dentada ergue a cabeça da esquerda para o centro; a ave da direita desce seu bico comprido até esse encontro. Seus pescoços fazem curvas em direções opostas, deixando uma abertura amarela entre eles. No lado direito, um tronco verde com ramos brancos sustenta visualmente a perna fina da ave. A folha inteira aparece na reprodução, com a borda irregular sobre uma margem branca.
A referência CF 43 permite pedir documentação de uma pintura determinada. Para localizar a obra numa consulta ao museu, esse número é mais preciso que o assunto “animais fantásticos”. Ele acompanha a reprodução junto do suporte e da data, mesmo quando a pesquisa muda de idioma.
Da documentação à sala de exposição
Para uma visita ao MANAS, a página prática reúne os horários, os contatos e a informação de entrada gratuita nas coleções e exposições temporárias. A programação permite conferir a montagem anunciada. Em Montolieu, o endereço é 5, route d’Alzonne, e a página de horários distingue os períodos do ano.7
Na consulta de 23 de outubro de 2026, Laval anunciava abertura de terça a sábado de manhã e à tarde, e aos domingos à tarde. Montolieu anunciava abertura de terça a domingo de manhã e à tarde até 1º de novembro, passando ao período da tarde em 3 de novembro. Os horários completos e as exceções ficam nos links oficiais, que devem orientar a escolha do dia.7
Se a viagem depende de uma obra, uma consulta ao museu pode reunir:
- Nome do artista nas formas usadas pela instituição, como Chico da Silva e Francisco da Silva.
- Título exato da ficha, acompanhado de inventário quando disponível.
- Data prevista da visita e pergunta sobre a presença da obra em sala.
- Pedido de referência de catálogo, caso a pesquisa continue mesmo sem a pintura exposta.
Um retorno do museu pode resolver a dúvida prática e deixar um dado para a pesquisa. No caso de Laval, o catálogo da mostra de 2017 ajuda a reconstruir o intercâmbio iniciado por Iracema; em Montolieu, a história da coleção de Cérès Franco permite acompanhar outro percurso de chegada.
Notas
-
MANAS. Brésil, un réalisme magique, exposição de 28 de janeiro a 30 de abril de 2017. Doações de Iracema desde 1967, viagem de Jean-Pierre Bouvet em 1972 e combinação de acervo e empréstimos na mostra. ↩ ↩2 ↩3
-
Coopérative-Musée Cérès Franco. Notre collection, atualizada em 5 de junho de 2026. Formação, correntes e seleção de obras, incluindo Imaginaire Amazonien. ↩ ↩2 ↩3
-
DRAC Occitanie, Ministère de la Culture. L’hommage de la Drac à Cérès Franco, collectionneuse d’art, 18 de novembro de 2021. Formação, Paris, abertura em Lagrasse e chegada a Montolieu. ↩ ↩2
-
MANAS. Francisco da Silva. Reprodução e identificação de Animaux fantastiques, guache sobre papel, 1966. ↩
-
Ministère de la Culture. Un nouveau musée de France en Occitanie, 17 de dezembro de 2025. Doação em 2020 e denominação recebida em 1º de dezembro de 2025. ↩ ↩2
-
Coopérative-Musée Cérès Franco. Les aventuriers de l’œil-de-bœuf : 100 artistes en hommage à Cérès Franco, atualizada em 30 de julho de 2026. Reabertura em junho de 2026. ↩
-
MANAS, Pratique; Coopérative-Musée Cérès Franco, Horaires et tarifs. Consultadas em 23 de outubro de 2026. A página de Montolieu foi atualizada em 23 de setembro de 2026. ↩ ↩2
