Arte e artistas

Baya: mulheres, aves e instrumentos na pintura

Um vestido abriga pássaros; instrumentos crescem como seres vivos. Três gouaches de Baya permitem acompanhar mudanças em sua pintura, de 1947 a 1976.

O abraço ocupa o centro de Femme en robe orange et cheval bleu. Uma manga laranja faz a volta por trás do pescoço do animal; mais abaixo, a curva azul da cabeça acompanha a curva do braço. Mulher e cavalo ficam ligados por esse encaixe, enquanto aves minúsculas passeiam pelo vestido. O assunto da pintura já está nesse gesto de aproximação, antes que se tente dar nome a todos os bichos.

Baya, nome artístico da argelina Fatma Haddad (1931–1998), pintou a obra por volta de 1947.1 O título identifica um cavalo, mas a cabeça de orelhas compridas não obedece a um modelo zoológico preciso. Os pequenos pássaros também têm partes recombinadas. A pintura conserva o reconhecimento dos animais enquanto lhes dá dimensões e anatomias próprias.

Uma mulher com cabelo azul e vestido laranja coberto de pequenas aves abraça o pescoço de um cavalo azul; folhas verdes cercam as figuras sobre o papel claro.

Femme en robe orange et cheval bleu, cerca de 1947. Gouache, grafite e tinta sobre papel colado em cartão, 74,7 × 91,6 cm.

Baya. Coleção do LaM, 999.68.1, doação de L'Aracine em 1999. Fotografia: Alain Lauras. Crédito informado: © Othmane Mahieddine. Ficha e reprodução do LaM.

A mulher tem olhos inclinados, boca vermelha e uma grande massa azul de cabelo. Pequenos pontos claros e curvas ornamentam esse cabelo, retomando as cores dos bichos espalhados pela roupa. O azul passa de uma figura à outra: é a pele do cavalo, reaparece nas aves e ganha um tom mais escuro em torno do rosto. A repetição da cor estabelece parentescos entre coisas de tamanhos muito diferentes.

No vestido, cada ave ainda tem espaço para ser vista inteira. Algumas são baixas e compactas; outras levantam o pescoço ou arrastam caudas longas. Há animais de duas cabeças, pequenos grupos e uma criatura azul com uma crista alta. O tecido permite reunir um bestiário dentro de uma única figura, sem transformar os pássaros numa estampa regular. Os intervalos laranjas continuam desiguais, e nenhum bicho parece a cópia exata do vizinho.

À esquerda e no alto, ramos verdes fazem o papel de uma borda descontínua. A aguada deixa ver diferenças de intensidade dentro das folhas e do corpo azul. Esse tratamento dá leveza ao espaço em torno da mulher, mesmo quando vestido e cavalo ocupam quase toda a folha. O papel claro pode ser visto entre os ramos e ao redor do rosto, cuja expressão depende de poucos traços.

Paris, 1947, e a vida que continuou depois

A primeira exposição individual de Baya aconteceu na Galerie Maeght, em Paris, no outono de 1947. Ainda adolescente, ela viajou acompanhada por Marguerite Caminat, que a acolhera na Argélia e incentivava seu trabalho. André Breton escreveu a apresentação da mostra.2 A estreia a colocou muito cedo em contato com a vanguarda parisiense.

A atenção recebida naquele momento pode encurtar demais sua história. Anissa Bouayed, historiadora da retrospectiva do Institut du monde arabe de 2022–2023, chama a atenção para os limites do relato de um talento surgido por milagre e da classificação automática como arte naïf.3 Entre a gouache de cerca de 1947 e as pinturas das décadas seguintes há uma vida de trabalho, com interrupção e retomada.

Depois do casamento em 1953, Baya interrompeu a produção. Voltou a pintar no começo dos anos 1960, com apoio de Jean de Maisonseul, diretor do Museu Nacional de Belas Artes de Argel.4 Seus motivos conhecidos reaparecem em composições que lhes dão outras funções. Os instrumentos musicais, em particular, passam a ter uma presença maior.3

Uma mulher do tamanho da sala

Uma mulher de perfil, com cabelo preto e vestido rosa de folhas escuras, está entre um instrumento de cordas e vasos com grandes flores.

La Dame aux roses, 1967. Gouache sobre papel, 101 × 152 cm.

Baya. Museu do Institut du monde arabe. Fotografia: Philippe Maillard. Crédito informado: © Musée de l'IMA / Philippe Maillard. Reprodução no dossiê do Institut du monde arabe.

Em La Dame aux roses, de 1967, quase não há espaço livre entre o vestido e os objetos que cercam a mulher. A grande área rosa avança da direita até a parte inferior esquerda. Dentro dela, formas escuras de bordas verdes abrigam manchas menores, também rosas. O motivo de uma folha pode, assim, conter a cor do tecido sobre o qual foi pintado.

O rosto de perfil e o cabelo preto dão direção a esse conjunto. A mulher está voltada para a esquerda, onde um instrumento de cordas ocupa quase a mesma altura de sua cabeça e de seu tronco visível. A caixa arredondada tem pequenos círculos junto ao contorno; duas formas alongadas, semelhantes a cabeças de pássaro, surgem no alto. O instrumento ganha uma postura própria, de pé ao lado da figura.

A escala dos vasos também é instável. Alguns cabem no canto inferior esquerdo, enquanto as flores nos lados crescem até tocar a borda superior. Não há uma sala desenhada com chão, paredes e ponto de fuga. Temos os objetos que poderiam habitar uma sala, aproximados e ampliados até preencher a folha. A mulher organiza esse interior pela dimensão do vestido e pela direção do rosto.

Seu pescoço escuro faz uma curva prolongada, interrompida por uma faixa clara. Ele aproxima a cabeça dos talos compridos e das curvas do instrumento. As figuras se tocam por relações de forma, além de simplesmente ocupar o mesmo lugar. Na obra de cerca de 1947, o abraço prendia mulher e animal; aqui, as curvas levam essa proximidade aos objetos.

O que o fundo faz com uma ave

O Pavão de Chico da Silva, de 1970, permite medir uma diferença no modo de usar a cor. O fundo preto isola o pescoço azul e as pernas vermelhas, enquanto a cauda sobe em longas penas cheias de ocelos.

Um pavão alto com a cauda aberta em ocelos coloridos sobre fundo preto. Pavão, Chico da Silva, 1970, guache sobre tela.
Pavão (1970), Chico da Silva João Cunha Collection.

Os círculos da cauda repetem olhos em amarelo, verde, azul e branco. Entre as penas, o preto continua aparecendo e ajuda a separar os ramos desse leque. Nas pinturas de Baya, a cor passa com mais facilidade de uma espécie de coisa para outra: vestido e ave podem ter o mesmo rosa; folha e instrumento podem receber o mesmo contorno grosso. O ambiente participa da figura quase por inteiro. Essa diferença se torna especialmente clara quando a mulher deixa de ocupar o centro e os instrumentos assumem seu lugar.

Os instrumentos tomam a frente

Aves rosas de caudas curvas cercam três instrumentos de cordas com caixas amarelas, entre folhas verdes e pequenos intervalos de papel claro.

Les Oiseaux musiciens, 1976. Gouache sobre papel, 100 × 150 cm.

Baya. Coleção particular. Fotografia: Alberto Ricci. Crédito informado: © Photo Alberto Ricci. Reprodução no dossiê do Institut du monde arabe.

Em Les Oiseaux musiciens, de 1976, duas grandes caixas amarelas se inclinam em direções opostas. Uma tem o braço voltado para baixo, a outra se alonga para cima; um instrumento menor atravessa a zona inferior. Suas cordas são linhas finas contidas por bordas espessas, onde círculos e manchas transformam a madeira numa superfície tão desenhada quanto a plumagem.

As aves rosas das extremidades parecem abrir espaço para os instrumentos. Uma cauda sobe, dobra no alto e volta sobre si; a outra se alarga junto à borda inferior esquerda. Entre esses volumes há intervalos estreitos de papel claro. A composição aproxima o peso das aves ao dos objetos, sem lhes dar exatamente o mesmo contorno.

A ausência de uma mulher torna as relações mais curiosas. Não há mãos tocando as cordas, mas os braços dos instrumentos cruzam a folha como membros, e suas caixas se erguem entre os corpos dos pássaros. Claude Lemand, no dossiê do IMA, chama essas composições de “naturezas-mortas vivas” e lembra que o marido de Baya era músico de tradição árabe-andaluza.4 A pintura traz a música para um espaço em que os instrumentos já parecem ter companhia e movimento próprios.

A cada passagem, um pequeno detalhe pode mudar de função: o círculo é olho numa cabeça rosa e ornamento na borda do instrumento; uma sequência de curvas acompanha a cauda e reaparece nas folhas. Baya dá aos bichos vizinhos com os quais partilham cores e desenhos. O jardim pode caber numa roupa ou tomar uma folha inteira.

Suheyla Takesh registra que a própria artista se referia com humor à sua prática como “Baya-ism”.5 O nome cabe bem a uma pintura cujo repertório permanece reconhecível enquanto a distribuição de seus personagens muda. Entre o abraço de 1947 e os instrumentos de 1976, são essas relações que se modificam: quem ocupa mais espaço, quem se inclina em direção a quem, quanto papel claro ainda resta entre dois corpos.

Para ver Baya na França, o LaM a inclui em Singulières : artistes, autodidactes, affranchies, de 3 de outubro de 2026 a 14 de fevereiro de 2027, e reproduz a mulher de vestido laranja na página da mostra.6 La Dame aux roses pertence ao Museu do Institut du monde arabe; Les Oiseaux musiciens é identificada no dossiê como obra de coleção particular.4

Notas

  1. LaM. Femme en robe orange et cheval bleu, cerca de 1947, inventário 999.68.1. Ficha técnica, aquisição e fotografia de Alain Lauras. ↩

  2. Stefano Mudu. Baya Mahieddine. La Biennale di Venezia, 2022: exposição de 1947, Marguerite Caminat e apresentação de André Breton. ↩

  3. Institut du monde arabe. Baya, icône de la peinture algérienne. Femmes en leur Jardin, 2022–2023. Anissa Bouayed sobre a leitura histórica da pintora e a introdução da música em sua pintura. ↩ ↩2

  4. Institut du monde arabe. Baya. Femmes en leur Jardin, dossiê de imprensa, 2022. Capa: La Dame aux roses; p. 4–7: casamento, interrupção e retomada da pintura; entrevista de Claude Lemand, p. 15: música e naturezas-mortas; p. 17: reprodução e dados de Les Oiseaux musiciens. Paginação impressa. ↩ ↩2 ↩3

  5. Suheyla Takesh. Baya. La Biennale di Venezia, 2024: a expressão “Baya-ism” e as figuras femininas. ↩

  6. LaM. Singulières : artistes, autodidactes, affranchies. Datas, artistas e reprodução da gouache de cerca de 1947. Consulta em 23 de outubro de 2026. ↩