Arte e artistas

Bestiário fantástico: como a pintura inventa um animal

Asas que lembram flores, penas com olhos e peixes de pele estampada: Chico da Silva, Gustave Moreau e Maria Augusta inventam seus animais na pintura.

Uma asa pode se abrir como flor sem deixar de pertencer a uma ave. Um peixe pode carregar manchas semelhantes a olhos e continuar reconhecível pela boca e pela cauda. Entre reconhecer um animal e perder a certeza sobre ele, a pintura encontra espaço para inventar. É nessa passagem que um bestiário fantástico começa a tomar forma.

Os bestiários medievais reuniam animais conhecidos e criaturas fabulosas em livros ilustrados, com narrativas que também transmitiam ensinamentos religiosos.1 Hoje, falar no bestiário de um pintor pode significar o conjunto de seres que reaparecem em sua obra. Cada caso exige descobrir o que reúne aquelas criaturas: uma história compartilhada, um modo de construir corpos ou a repetição de certos gestos.

Nas aves de Chico da Silva, nas quimeras de Gustave Moreau e num peixe de Maria Augusta, essas possibilidades seguem caminhos diferentes. A pergunta que aproxima as pinturas é bastante material: em que ponto uma cabeça, uma asa ou uma mancha muda o animal que julgávamos conhecer?

Quanto de ave cabe numa asa

Uma ave fantástica e alta com uma asa raiada em forma de roda, um filhote e uma borboleta listrada acima. Aves Fantásticas e Borboleta, Chico da Silva, c. 1967, guache sobre papel.
Aves Fantásticas e Borboleta (c. 1967), Chico da Silva João Cunha Collection.

Em Aves Fantásticas e Borboleta, de cerca de 1967, Chico dá à ave maior um pescoço comprido e uma cabeça pequena, voltada para baixo. O bico aberto chega perto do outro pássaro. A silhueta permite seguir esse gesto antes de reconhecer os desenhos internos. Já as asas interrompem a continuidade: largas áreas rosadas se abrem em torno de pequenos círculos, como pétalas vistas de frente. A junção com o dorso mantém essas formas presas ao animal.

A asa comporta duas leituras. Podemos vê-la como parte de um corpo capaz de se mover, embora sua organização radial lembre uma flor. As bordas escuras e as nervuras ajudam a sustentar ambas. Essa ambiguidade tem consequências: o que seria uma superfície coberta de penas passa a parecer uma estrutura que se abre. A invenção altera o modo como imaginamos o movimento.

A ave menor, no canto esquerdo, também tem penas prolongadas em fios. A borboleta, no alto, divide suas asas em campos verdes, limitados por ondas de laranja e azul. Entre seres de escalas diferentes, encontramos operações semelhantes: um eixo escuro sustenta uma superfície colorida; traços pequenos a preenchem; as pontas se alongam além do que seria necessário para identificar uma asa ou uma cauda.

É possível reconhecer uma família pictórica sem dar aos bichos uma espécie. A comparação acontece nos encontros entre as partes, e o título coletivo deixa essa convivência aberta. Mesmo o pássaro menor, quase alcançado pelo bico do maior, conserva o espaço de que precisa para mostrar as duas asas.

Uma ave de cauda de pavão sobre um montículo escuro, com uma segunda cabeça azul, uma borboleta e um galho cortado. Pavão e Ave Fantástica, Chico da Silva, c. 1969, guache sobre papel.
Pavão e Ave Fantástica (c. 1969), Chico da Silva João Cunha Collection.

Pavão e Ave Fantástica, de cerca de 1969, leva a questão para as penas. À direita, elas descem em faixas longas que terminam em formas de olhos. Cada faixa tem um eixo e linhas oblíquas, como uma folha com nervura. No centro, o corpo da ave mais baixa se divide em células encaixadas. Em cima, o dorso escuro da outra ave contém espirais e pequenos traços. A mesma pintura acomoda organizações diferentes de uma pele animal.

Essa divisão ajuda a separar os corpos sobrepostos. O pescoço escuro sobe até a crista vermelha; o pescoço azul passa por trás dele e alcança a cabeça voltada à esquerda. Seguir apenas os padrões pode nos fazer perder uma ave dentro da outra. Quando retomamos o percurso de cada pescoço, a composição se esclarece. As patas de uma ficam no pequeno apoio verde, enquanto as garras da outra pousam sobre o corpo vizinho. O peso de uma ave depende da presença da outra.

O pavão já oferece ao pintor uma plumagem que parece conter olhos. Chico amplia esse repertório, aproxima pena e folha e varia o desenho dentro de cada área. A nota do MANAS sobre sua pintura descreve justamente a transformação de animais reconhecíveis pelo acréscimo de elementos imaginados.2 Aqui, a transformação continua depois de reconhecermos a ave: precisamos decidir como suas partes se conectam e onde termina cada corpo.

Moreau: criaturas que carregam histórias

Mulheres e criaturas aladas ou serpentinas se espalham entre plantas, rochedos e uma cidade desenhada com linhas finas; árvores escuras cercam a parte superior da composição.

Gustave Moreau. As Quimeras (Les Chimères), 1884. Óleo sobre tela, 236 × 204 cm.

Gustave Moreau. Musée Gustave Moreau, Paris, Cat. 39. Fotografia: RMN-GP / René-Gabriel Ojéda. Ficha do Musée Gustave Moreau.

Em As Quimeras, Moreau espalha os encontros pela paisagem. Árvores escuras cercam o alto da tela; abaixo, uma cidade, rochedos e corpos se acumulam em desenho delicado. Há trechos pintados e extensas áreas em que as linhas ficam expostas. A obra, datada de 1884, permaneceu inacabada.3

Precisamos procurar os animais entre as pessoas. Uma asa pode pertencer a uma criatura que só reconhecemos depois de acompanhar a curva do dorso. Em outros pontos, o corpo humano se aproxima de formas serpentinas ou se acomoda sobre o animal. O desenho permite seguir essas ligações, mas cada passagem nos leva a outro encontro. O bestiário se distribui numa rede de relações.

A ficha do museu identifica uma serpente de cabeça humana abraçada por uma mulher e uma figura sentada num touro alado. Situa essas criaturas numa alegoria moral das paixões.3 O reconhecimento acrescenta uma narrativa: o animal tem uma anatomia extraordinária e participa de uma história em que os gestos humanos precisam ser interpretados.

Esse repertório também altera o papel do título. “Quimeras”, no plural, reúne seres diferentes sob um mesmo campo de imaginação. As criaturas têm posições e funções próprias; observá-las exige passar de um episódio para outro. Nas aves de Chico, o encontro entre pena, folha e flor já pode produzir o animal fantástico, sem que precisemos localizar uma personagem de uma narrativa anterior.

A escala física reforça a diferença de leitura. A tela de Moreau ultrapassa dois metros de altura; as gouaches de Chico cabem numa folha. Numa reprodução de mesma largura, as figuras miúdas de Moreau podem parecer simples sinais. Ao ampliar, reaparecem corpos inteiros, asas e gestos. O quadro pede aproximações sucessivas para que o bestiário deixe de se confundir com a própria paisagem.

O peixe de Maria Augusta e os olhos que não veem

Um grande peixe fantástico de perfil, o corpo escuro pontilhado de espirais e marcado por três discos como olhos. Peixe Fantástico, Maria Augusta, 1973, guache sobre tela.
Peixe Fantástico (1973), Maria Augusta João Cunha Collection.

Em Peixe Fantástico, de 1973, Maria Augusta concentra quase tudo numa figura. A boca rosa se abre à esquerda e expõe dentes compridos. A cauda se divide em duas pontas à direita. Entre esses extremos, as nadadeiras desenham uma franja de linhas vermelhas, verdes e azuis. O fundo claro e as formas verdes afastadas do corpo deixam sua silhueta inteira à vista.

O peixe tem um olho perto da boca, mas três grandes ovais amarelos e vermelhos ocupam o flanco. Parecem olhos pelo centro escuro e pelo contorno; também lembram flores ou as marcas de uma plumagem. A diferença é legível na própria pintura. O olho da cabeça está colocado para orientar o animal. Os ovais do corpo organizam a superfície e chamam nosso olhar de um ponto a outro, sem se voltarem para nada fora dela.

Ao redor deles, espirais de pontos coloridos se agrupam sobre o preto. Na cabeça, os traços claros se acomodam em faixas curvas. O padrão distingue regiões do corpo que a silhueta mantém unidas. O peixe suporta um repertório que reconhecemos em outros seres, com ocelos de pavão e franjas que poderiam ser penas, embora a abertura da boca continue a nos devolver à imagem de um peixe.

A comparação com Chico ganha precisão nesse ponto. Os dois usam linhas e marcas pequenas para construir uma superfície, e as formas de um animal podem migrar para outro. Maria Augusta, aqui, faz a grande figura permanecer isolada e inteira à vista; o que era trama entre duas aves se torna concentração num único corpo.4

Olhar esse peixe depois das quimeras de Moreau muda a pergunta sobre os monstros. A cabeça humana da serpente oferecia uma identidade narrativa. Os ovais no flanco deste peixe podem multiplicar a impressão de olhos sem criar três novos órgãos. A pintura trabalha com o intervalo entre um sinal reconhecível e a função que imaginamos para ele. O animal fantástico continua a se formar enquanto olhamos.

Notas

  1. J. Paul Getty Museum, Book of Beasts: The Bestiary in the Medieval World, apresentação da exposição de 2019: bestiários ilustrados, criaturas reais e fabulosas, leitura religiosa. ↩

  2. MANAS, Musées de Laval, Francisco da Silva, comentário sobre a transformação de animais reais. ↩

  3. Musée Gustave Moreau, Les Chimères, Cat. 39: dados da obra, estado inacabado e identificação das figuras. ↩ ↩2

  4. Fichas da Coleção João Cunha: Aves Fantásticas e Borboleta, jcc-073, Pavão e Ave Fantástica, jcc-086 e Peixe Fantástico, jcc-084. As leituras visuais partem das reproduções. Para a trajetória da pintora, veja Maria Augusta, a menina que assinou. ↩