Arte e artistas

Pintura onírica: como os artistas inventam um mundo

O que torna uma pintura onírica? O sofá de Rousseau e um encontro de animais de Chico da Silva ajudam a distinguir sonho narrado e estranhamento visual.

O sofá de O sonho, de Henri Rousseau, é um móvel pesado, com encosto curvo e estofamento escuro. Seria possível reconhecê-lo numa sala. Aqui, ele está numa mata: folhas alcançam suas bordas, flores enormes cercam a mulher deitada, e dois leões olham por entre a vegetação. O objeto mais familiar da cena também é o mais deslocado. A dificuldade começa aí: tudo está suficientemente nítido para ser reconhecido, embora o conjunto não pertença à experiência cotidiana.

Chamar uma pintura de onírica costuma ser uma maneira de nomear esse estranhamento. A palavra pode indicar o relato de um sonho, como acontece com Rousseau, ou uma impressão de quem olha. Distinguir essas situações ajuda a enxergar mais: o pintor pode contar o que a figura sonha; a composição pode, por conta própria, fazer vacilar nossa certeza sobre o lugar em que estamos. Para entender a diferença, vale demorar no sofá antes de procurar símbolos escondidos.

O lugar onde o sonho acontece

Mulher deitada num sofá entre flores enormes e folhas; leões e um músico aparecem na mata sob a lua.

Henri Rousseau. O sonho (The Dream), 1910. Óleo sobre tela, 204,5 × 298,5 cm.

Henri Rousseau. The Museum of Modern Art, Nova York, 252.1954. Doação de Nelson A. Rockefeller. Reprodução: MoMA; fotógrafo não identificado na ficha. Ficha do museu.

A mulher ocupa quase toda a metade esquerda da tela. O braço estendido acompanha o encosto do sofá e aponta para a região em que aparece o músico. Ela tem espaço para se reclinar; à sua volta, a mata se fecha em sucessivas barreiras. As folhas da frente escondem a base do móvel. Outras sobem atrás dele, e os animais surgem em aberturas estreitas. O sofá está instalado na floresta com uma firmeza que torna sua presença ainda mais estranha.

Rousseau explicou a cena: a mulher adormecida sonha ter sido levada à floresta, onde ouve o instrumento de um encantador. O MoMA reproduz esse comentário do pintor.1 Temos, portanto, uma pista sobre a narrativa. A mulher e o lugar alcançado no sono aparecem juntos, sem uma moldura que separe a sonhadora daquilo que ela sonha.

A pista resolve o motivo do encontro, mas deixa intacta a experiência visual. O braço estendido, os focinhos voltados para nós e a faixa de cor na roupa do músico continuam disputando nossa atenção. As folhas têm bordas tão definidas quanto o corpo da mulher. Uma planta ao fundo pode se impor com a mesma precisão de outra, bem à frente. A sobreposição cria distância, enquanto a nitidez a comprime.

Há também uma diferença entre o que o quadro mostra e o que pede para imaginar. Vemos o músico levando o instrumento à boca; nenhum som chega até nós. O braço da mulher conduz o olhar na direção dele, e o comentário do pintor convida a ouvir mentalmente a música. A floresta inteira parece suspensa nessa escuta. A imobilidade dos animais permite tanto uma leitura de calma quanto de vigilância: os olhos abertos dos leões não deixam a cena inteiramente repousar.

Essa tensão faz o sonho durar. Reconhecer a explicação de Rousseau leva um instante. Percorrer as interrupções do verde, distinguir um rosto entre os caules e voltar à mulher exige mais tempo.

Um adjetivo e um movimento histórico

O sonho é de 1910. Em 1924, André Breton publicou o primeiro Manifesto do surrealismo, propondo o automatismo psíquico e o acesso ao pensamento fora do controle racional. A apresentação histórica do MoMA situa aí o programa do movimento.2 O intervalo entre as datas permite usar os termos com cuidado: Rousseau pintou aquela floresta antes da formulação surrealista.

“Onírico” pode descrever um efeito da imagem. “Surrealismo” nomeia uma história de artistas, textos e procedimentos. Uma pintura de animais inventados pode provocar estranhamento sem que isso determine sua filiação a um movimento. Da mesma forma, saber que um artista participou do surrealismo deixa por examinar como cada uma de suas imagens trabalha com o sonho.

A diferença aparece quando perguntamos o que exatamente nos parece onírico. Em Rousseau, há um relato do pintor e uma convivência improvável entre objetos. Em outra obra, talvez seja a falta de uma medida estável, ou a impossibilidade de localizar as figuras num ambiente. Essas perguntas permitem sair do adjetivo e voltar à pintura.

O azul sem endereço de Chico da Silva

Um inseto fantástico de grande porte atacando outro menor sobre fundo azul. Animais Fantásticos, Chico da Silva, 1978, acrílica sobre tela.
Animais Fantásticos (1978), Chico da Silva João Cunha Collection.

Em Animais Fantásticos, de 1978, Chico da Silva dispensa o cenário de plantas que nos orientava em Rousseau. Um ser grande se inclina diante de um inseto pequeno; o azul preenche todo o intervalo em torno deles. Nenhuma linha separa chão e céu. As patas compridas do animal terminam em dedos abertos, mas não há terreno desenhado sob eles. Podemos acompanhar seu corpo com segurança e, ainda assim, não saber onde ele está.

A diferença de tamanho cria uma ação possível. O inseto fica perto do focinho e parece caber numa das mãos do ser maior. Suas duas asas cinzentas se abrem para cima, enquanto longas formas vermelhas e azuis saem da cabeça do outro animal. De longe, esses prolongamentos também lembram asas ou folhas. A repetição aproxima os corpos que a escala separa.

O azul passa entre as pernas e sob a barriga. Em vez de oferecer uma sucessão de planos, mantém os dois seres expostos ao mesmo tempo. Não precisamos atravessar uma mata para encontrar o menor. A estranheza vem da proximidade: a criatura enorme se dobra até um ser que poderia passar despercebido, e o encontro ocupa quase toda a tela.

Essa pintura permite uma leitura onírica por causa do espaço e da escala; a leitura é nossa. O título e os dados da obra não fornecem um sonho narrado por Chico.3 Guardar essa diferença abre outras possibilidades para o quadro. A cena também pode parecer um encontro curioso, uma ameaça ou uma conversa entre animais. O focinho se aproxima das patas dianteiras do inseto sem que o gesto se conclua. É nesse pequeno intervalo azul que cada leitura encontra apoio.

A floresta que foi montada em Paris

Cinco macacos aparecem entre folhas verdes sobrepostas, flores brancas e alaranjadas e folhagem vermelha.

Henri Rousseau. Floresta tropical com macacos (Tropical Forest with Monkeys), 1910. Óleo sobre tela, 129,5 × 162,5 cm.

Henri Rousseau. National Gallery of Art, Washington, John Hay Whitney Collection, 1982.76.7. Reprodução: NGA; fotógrafo não identificado na ficha. Ficha do museu.

A outra floresta de Rousseau ajuda a testar o alcance da palavra. Em Floresta tropical com macacos, também de 1910, nenhum sofá anuncia um objeto fora do lugar. Há macacos, folhas e flores. O estranhamento se constrói nas relações entre coisas que poderiam habitar uma mesma paisagem.

As folhas aumentam até parecerem cortinas. O macaco escuro, à esquerda do centro, olha para fora do quadro; os macacos alaranjados se penduram em ramos no alto. Há um céu claro e árvores que empalidecem ao longe, mas as plantas da frente fecham as passagens. O olho procura uma abertura e volta a encontrar folhas. A paisagem promete profundidade e oferece uma sequência de superfícies.

A National Gallery of Art documenta as fontes parisienses de Rousseau: jardins botânicos, zoológico e imagens impressas. O pintor nunca saiu da França.4 O dado muda nossa relação com aquela mata. Os elementos observados em lugares diferentes foram reunidos num espaço que só a pintura torna contínuo. A invenção começa nessa montagem, mesmo quando cada planta parece ter sido estudada separadamente.

O quadro também resiste à ideia de que uma pintura onírica precise mostrar algo impossível. Quase tudo pode ser nomeado; a sensação vem da escala das folhas, da quantidade de planos que se fecham e da insistência dos olhos que nos encontram. Enquanto procuramos o caminho por dentro da floresta, os macacos já nos viram. O lugar parece existir por conta própria, e somos nós que ainda não sabemos entrar.

Notas

  1. The Museum of Modern Art, Henri Rousseau, The Dream, ficha 252.1954, dados da obra e comentário do pintor reproduzido no cartel de 2021. ↩

  2. MoMA Learning, Surrealism, apresentação histórica e definição de automatismo no manifesto de 1924. ↩

  3. Coleção João Cunha, Animais Fantásticos, jcc-028, acrílica sobre tela, 42 × 60 cm, 1978. A leitura espacial parte da reprodução. ↩

  4. National Gallery of Art, Tropical Forest with Monkeys, ficha 1982.76.7, dados técnicos e fontes usadas para compor as florestas. ↩